domingo, 17 de maio de 2015

A ideologia de Castells

Participei de um almoço, um petit comité, como sugeria o convite, com Manuel Castells na quinta. Havia sido sorteada para sua disputada conferência à noite, a aula magna da Udesc, e aceitei de imediato. Li artigos e alguns generosos capítulos de Comunicação e Poder, mas não sou discípula de Castells. Bem longe disso, aliás.

Ele contava que recusou alguns convites para falar na Argentina, uma na Universidade de Buenos Aires (UBA) e outra na Universidade de La Plata (UNLP), mas que recentemente aceitou o convite da Universidade de San Martín (UNSAM) “por se tratar de uma universidade séria”, segundo ele. Perguntei a razão da recusa e ele afirmou que “as universidades argentinas são carregadas de ideologia”.

Contei a Castells que a formação universitária no jornalismo é, em geral, bastante direcionada à técnica, diferente da formação argentina que é voltada à teoria política e social e à militância. De minha parte, defendi que um jornalista precisa saber onde está, o que defende o seu patrão e qual a sua posição social de classe e que, para além da técnica, na minha opinião, a universidade tem também essa responsabilidade na formação de seus profissionais.

Castells fez um rasgado elogio à técnica e reafirmou a condição ideológica das universidades argentinas.

Se ideologia é a falsa consciência ou um conjunto de ideias e representações que servem para legitimar e reproduzir a ordem estabelecida, acaso não existe uma ofensiva ideológica na técnica? Castells sorriu, o pró-reitor que o acompanhava fez sinal de negação com a cabeça e foi minha última intervenção. Afinal, não estávamos ali para isso.

Dias depois li a entrevista de Castells ao Diário Catarinense. Não deixa de ser contrastante que Castells, estudioso das relações de poder que rasga elogios à técnica em detrimento da formação política e social, acredite na capacidade profissional dos jornalistas em impedir que os grupos de comunicação manipulem totalmente a informação em defesa de suas próprias políticas e ideologias.

Fica claro o malabarismo político de Castells ao depositar tamanha confiança na formação tecnicista do jornalista em uma época em que os grupos de comunicação exibem posição política e ideológica tão definidas. 

Leia aqui a entrevista de Manuel Castells ao DC.
* Foto: Cristiano Estrela / Agencia RBS.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

tão doce de olhar



Lia Borges, Piglia e os oitocentistas da literatura russa. Branquinha, sentada em uma poltrona estofada do Ateneo da Florida, passava as tardes entre livros e uma e outra xícara de chá.
Leio para manipular a realidade.
Quando a alça do sutiã insistia em cair, Emma recolhia com o levantar dos ombros, ao toque sutil de virar a página.
Pensei que buscava o ar fresco da livraria. Ou apenas um cenário e uma poltrona para debruçar. Emma é aluna do terceiro período de história. Nasceu em oitenta e seis com Menem no poder e foi batizada de Emma Zöe.

- Tal como Emma Zunz do conto de Borges, lembra.
Não tem irmão e reserva uma dose de impaciência típica da adolescência. Coleciona folhetins antigos e tabloides de línguas diversas. Virgem, de setembro. - Prefiro ler a conversar, disse logo que Caetano começou a tocar.   
16:30 no tilintar do Ateneo. – Preciso ir.  
E saiu, mais leve que o ar.