sábado, 31 de dezembro de 2016

registros de um fim de ano nostálgico


Fim de ano é sempre nostálgico. Aí, num intensivo natalino com minha mãe, pai e avô, resolvi provocar as cócegas com meus álbuns de infância. No meio do caminho encontrei um “diário de bebê”, onde meus pais desenharam a árvore genealógica de tal maneira que deixei de ser filha e passei à condição de bisavó materna que usava vestidos, fraldas e sapatilhas. Sim, acho que graças àquela árvore mal desenhada, quiçá um desejo inconsciente deles, alcancei cedo a maioridade.

Quando nasci, em setembro de 1980, media 53 centímetros e pesava 3,6 quilos. Em outubro do mesmo ano, eram 4 quilos distribuídos em 56 centímetros. Em novembro, 5 por 58. Três meses depois, meus pais cansaram de medir e acho que saí de casa. Não sei quando nasceu meu primeiro dente e nem quando dei o primeiro passo, mas o primeiro sorriso, segundo o diário, foi para o meu pai em novembro de 1980. Eu já acho que não demorei tanto a sorrir para a vida, mas que esqueceram de anotar.

Então, antes que os bons registros se percam por aí, trouxe comigo essas duas fotos, um pequeno álbum natalino de praia, em férias e com as pernas de fora. Porque é assim que pretendo passar os primeiros dias deste novo ano.


E que a vida seja doce, de luta e coragem. 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

recuerdos e passagens


Faz vinte anos que saí de Blumenau e desde então não passava por esse túnel. Não lembro de sua construção, mas o colégio ficava do outro lado da rua e passava por ali pelo menos duas ou três vezes por dia. Às vezes as goteiras de dentro bagunçavam os cabelos mais que a chuva que caía lá fora e até tentava evitar suas escadas, mas dia sim e outro também lá estava... descendo, andando e voltando pra casa.


Aí ontem - não sem tentar desviar do túnel e atravessar a rua, voltei àquela passagem e lembrei daquele velho e bom tempo perdido. Também chovia, ainda tem goteiras, umidade e poemas duvidosos nas paredes, mas estar ali, agora sem uniforme nem dever de casa, e depois de vinte anos percorrendo outras trilhas, caminhos e memórias, causaram um certo entusiasmo. Uma centena de passos e tantos recuerdos.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

sobre espreguiçadeiras

Sempre gostei de redes e espreguiçadeiras. Na falta de uma furadeira à mão para pendurar uma rede, escolhi uma cadeira de espreguiçar. Ironia ou não, ela chegou anteontem graças à inclinação do banco traseiro de um carro que não necessariamente foi feito para acomodar.


E aquela falta de medida que às vezes carrego comigo agora veio parar na minha varanda. Simbólico ou não, ela é um tantinho maior do que caberia e lembra um pouco os apertos e amarras da vida... às vezes um tanto maior do que deveriam. 

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

se hace camino al andar

      Outro dia fui à casa da Juliana de bicicleta. Na metade de uma tarde, não lembro se de uma terça ou quarta, ela me convidou para um café. A sensação do pedalar naquele dois e meio quarteirão. Aquela liberdade juvenil. Engraçado como com o passar do tempo perdemos nosso sentido de liberdade, quando pedalar até a casa vizinha já é estar sem amarras. 
Hoje, quando a noite pouco prometia, fui andando para o jantar. Caminhar duas quadras com as chaves de casa e uma garrafa de vinho. Esse caminhar simples da vida, de andar descalço, brincar com um cachorro na esquina. A simplicidade de ir a pé para um jantar. 

{Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.}


Antonio Machado.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Vuelvo al Sur na argentina macrista

     
     Depois da eleição de Macri não voltei mais à Argentina. Nenhuma promessa - apesar do rechaço à política neoliberal do empresário-presidente, mas uma espécie de ressaca portenha. Buenas, eis que sobrevivi os últimos dez dias por lá e as coisas mudaram.  Não tem livro barato nem vinho em conta em restaurante. Também não tem mais Ley de Medios e uma vez ou outra também não pode dar a volta na Plaza de Mayo. Explico.

A Ley de Medios (Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual), que na Argentina de Cristina foi sancionada, retrocedeu. Na minha opinião, a democratização dos meios de comunicação pouco avançou na era K, apesar da aprovação do marco regulatório. A disputa do governo com o grupo Clarín prevaleceu e, em grande medida, a legalização dos canais comunitários só foi liberada no fim do mandato Kirchnerista. Da aprovação da lei, em 2009, à declaração de constitucionalidade pela Suprema Corte Argentina, foram quatro anos de batalhas judiciais. Em outubro de 2013, enfim, a corte declarou constitucional os quatro artigos da lei – 41, 45, 48 e 161 que, questionados pelo setor empresarial, adiavam sua aplicação integral. Está bem que, por meio da legislação, foi possível instalar 152 rádios em escolas, 45 tevês e 53 rádios universitárias, além de criar o primeiro canal na tevê aberta e outros 33 canais de rádios vinculados aos povos originários. Mas, ainda assim, o avanço não foi significativo para a real democratização do setor. O Grupo Clarín não perdeu poder econômico e, ao que parece, no último ano resgatou parte de seu poder político. Agora, além de principal opositor ao Kirchnerismo, torna-se principal porta-voz do oficialismo macrista.

A sorte dos três primeiros canais comunitários da história argentina também acabou suspensa no ar. A Barricada TV e a Urbana TV, de Buenos Aires, e a Pares TV, de Luján, ganharam suas respectivas licenças para operar em TDA (Televisão Digital Aberta), mas o Artear/Grupo Clarín contestou a decisão junto à Enacom (Entidade Nacional de Comunicação, ligada ao Ministério das Comunicações). No caso do canal alternativo e popular Barricada TV, o posicionamento do organismo implicará tomar uma decisão frente à interferência gerada por Artear, empresa do Grupo Clarín, na frequência 33.  A frequência é reservada para emissões em baixa potência e havia sido destinada à Barricada, segundo o Plano Nacional de Serviços de Comunicação Audiovisual Digitais. No entanto, a mesma frequência 33 vinha sendo utilizada pelo Canal 13, do Grupo Clarín, para realizar suas transmissões experimentais em televisão digital sem qualquer concessão estatal. Ou seja, o Clarín interfere nas emissões de um canal sem fins de lucro e impede que a Barricada TV seja transmitida em Buenos Aires como determina a lei.

Desde dezembro de 2015, de acordo com a resolução 1092 do Diário Oficial Argentino, a Barricada TV detém legalmente a licença em TDA sem fins de lucro e baixa potência, o que implica uma área de cobertura de 10,3 quilômetros no canal digital 33.1. Ainda assim, apesar da decisão, uma parte importante da cidade sofre com a interferência da transmissão e assiste tudo em preto e branco ou assiste o Clarín. Ou seja, a interferência só afeta a televisão comunitária e a liberdade de expressão, já que o Grupo Clarín é um oligopólio midiático transmitido em cores.

Ah, o jornal La Nación, fundado há 147 anos e líder no pensamento liberal-conservador do país, tem agora um canal de televisão digital. A proposta do LN+ (La Nación Más) é, segundo a descrição do próprio, uma mistura de atualidade, lifestyle e documentários. Por enquanto, o LN+ é transmitido apenas pela internet, mas, a depender da íntima relação com o governo Macri, logo pode ser beneficiado com a licença de um canal.

A Plaza de Mayo, palco de manifestações políticas e comemorações nacionais, reflete bem o ambiente político do país. Localizada diante da Casa Rosada e pertinho da zona financeira, a praça fica parcialmente fechada diante de qualquer “ameaça à ordem”, com policiamento e estacas de ferro para evitar que os manifestantes se aproximem da Casa Rosada. A impressão de um taxista de San Telmo, que, destaco, votou no Macri, é que o presidente tem medo de manifestações e então bloqueia ruas e avenidas para que os protestos não alcancem a casa grande. Registra-se que, neste dia, não havia mais de 100 manifestantes na praça. O taxista ainda comentou que os periódicos e telejornais do Clarín, conglomerado de mídia que além de impressos tem mais de duzentos canais de televisão e outras tantas emissoras de rádio AM e FM, passam os dias responsabilizando a Cristina Kirchner pelos infortúnios e medidas antipopulares do governo Macri. “Se este semáforo cair, disse apontando para o alto, a culpa será de Cristina”. Outra: “se um pobre morrer na rua, a culpa é de Cristina”. Até aí, nada de novo. Uma Argentina polarizada, que antes vivia a ‘década ganada dos Kirchner’ e hoje resiste à ofensiva macrista, política que já soma 1,4 milhão de novos pobres e que tem o Grupo Clarín como principal opositor a tudo que possa representar un pasito a la izquierda.

Já os livros, que antes abarrotavam a bagagem, foram acomodados na mala sem tirar nem pôr. Me assustei quando vi um livro do esloveno Žižek, por exemplo, à venda por quase cem reais, e os do Cortázar, da edição Alfaguara, numa média de oitenta mangos. Os livros de jornalismo e comunicação editados em Buenos Aires custam entre cinquenta a setenta reais. E nem adianta recorrer ao câmbio paralelo, já que a diferença não é mais tão significativa.

Ah, os vinhos seguem em conta no mercado chino. Aliás, outra notícia da Argentina macrista é que os aposentados, para comprovar que ainda vivem, precisam fazer, mensalmente, uma compra nas grandes farmácias e supermercados (Farmacity e Carrefour, precisamente). Não vale comprar no mercado chino ou na farmácia da esquina, porque esses não garantem sua existência. Na Argentina macrista, a vida só pode ser assegurada pelas grandes redes. Do contrário, a conta é encerrada e o aposentado tem todo um trâmite para reabilitá-la. Isso porque o CEO da Farmacity é agora o adjunto na chefia de gabinete dos ministros. Bueno, bienvenidos à economia de livre mercado da era Macri.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Dos arquétipos de Haro



Rodrigo de Haro é um criado obediente do trabalho. É assim que o multiartista catarinense, filho do pintor Martinho de Haro, se autodenomina. “O trabalho contínuo é quem me guia. A mão e as batidas do coração é que sabem”. Quatro anos após sua última exposição individual em Florianópolis, Rodrigo de Haro abre na sexta-feira, dia 7 de outubro, a mostra Dos Arquétipos – O Poder das Imagens na Galeria de Arte Helena Fretta, em Florianópolis. A exposição é resultado de 18 meses de trabalho do artista e reúne 39 obras, todas inéditas. O projeto, idealizado pela galerista Helena Fretta e aprovado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura, conta com o patrocínio da Flex Gestão de Relacionamentos e prevê, ainda, lançamento de catálogo e quatro palestras com o artista e com o curador da mostra, Fabrício Peixoto.

Entre as pinturas selecionadas para a individual estão obras que representam os vinte e dois Arcanos Maiores do Tarô, os doze signos do zodíaco e suas correspondências nas flores, Santa Catarina de Alexandria e São João Damasceno, além de três videntes. A presença das figuras do tarot, do baralho, da transcendência são uma constante no trabalho de Rodrigo de Haro. “As cartas aparecem esvoaçando sobre naturezas mortas e sobre figuras, as habituais criaturas embuçadas ou não, mas sempre enigmáticas manipulando baralhos. Sempre a interrogá-los”, descreve.

Aos 76 anos, sendo mais de seis décadas dedicadas à arte, Rodrigo de Haro demonstra que não tem a paranoia do “novo” nem de ser original. “Nada é novo debaixo do sol”, lembra o artista, reproduzindo Eclesiastes. “O importante é apresentar sua verdade. Cioran (Emil Cioran, escritor e filósofo romeno radicado na França) afirma com razão que a busca desesperada de originalidade é, com certeza, a prova de um espírito de segunda classe. Neste ponto, sou bastante hierárquico”, afirma.

Para Fabrício Peixoto, curador da mostra, essas obras são caminhos para a nossa imaginação. “Se enxergamos nelas figuras exemplares do universo oculto é porque essas imagens primordiais existem em nosso inconsciente. A essas forças que agem na psique humana Carl Jung chamou de arquétipos”.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

humor drummondiano

VIVER
Carlos Drummond de Andrade

Mas era apenas isso,
era isso, mais nada?
Era só a batida
numa porta fechada?
E ninguém respondendo,
nenhum gesto de abrir:
era, sem fechadura,
uma chave perdida?
Isso, ou menos que isso,
uma noção de porta,
o projeto de abri-la
sem haver outro lado?
O projeto de escuta
à procura de som?
O responder que oferta
o dom de uma recusa?
Como viver o mundo
em termos de esperança?
E que palavra é essa
que a vida não alcança?

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

"9:30, tua carta e o sol voltou"


Aqui jaz um artista / mestre em desastres / viver / com a intensidade da arte / levou-o ao infarte / deus tenha pena / dos seus disfarces.

Mestre em jogos irônicos, improvisos, caprichos e relaxos. O cachorro louco Paulo Leminski não era fixo em nada. Fez poesia, prosa, romances, contos, traduções, biografias, canções, ensaios críticos, crônicas e um catatau de outras coisas. Na obra Paulo Leminski – o bandido que sabia latim, o biógrafo Toninho Vaz apresenta o poeta como samurai futurista, pensador, selvagem, agitador intelectual, meio polaco e meio caboclo, provinciano e universal, e conclui: “ Leminski foi uma inesquecível tempestade na cena cultural brasileira, antes de morrer aos 44 anos, em 1989, no auge do sucesso, como um mito”. Críticos de amigos tentaram classificá-lo. Caipira cabotino, samurai malandro, monástico sujeito, polilíngue paroquiano cósmico, samurai mestiço. Ele também tentou se autodenominar. Parnasiano-chic, guerreiro da palavra, caboclo-monge-black-beat-zen, útil operário do signo.
        
    Leminski não pode ser situado em algum centro. É um poeta e prosador que transita entre o erudito e o popular, o legível e o ilegível, a exatidão da forma e a descompressão do verso; um “homem-centauro” que “hesita, mestiça entre a pressa e a preguiça”, porque assim ele queria ser lembrado.
            Esse retrato multifacetado é acentuado, sobretudo, na obra Uma carta uma brasa através, reeditada em 1999 com o título Envie meu Dicionário – cartas e alguma crítica, que reúne as 68 cartas remetidas ao poeta paulista Régis Bonvicino. Leminski fez da sua correspondência um diálogo privado, o registro de um desabafo, um testemunho poético onde o autor “aconselha, admoesta, comenta, discorda, prega, teoriza, doutrina, corrige poema e outros escritos”, como discorreu Walnice Galvão sobre o epistolário de Mário de Andrade.
            Nos cinco anos da troca epistolar, a figura opressiva foi a da censura. Falar em música popular brasileira e televisão representava não somente a modernização, mas ecoava resistência cultural. Nas cartas-poemas, Leminski dá voz àquilo que não era de direito mencionar, faz alusões à ditadura militar dos anos 1970, ao movimento da contracultura, às inquietações político-estéticas de sua geração e imprime sua identidade poética, uma busca da “liberdade da minha linguagem”.
            Em 1976, às três da madrugada de uma noite chuvosa em Curitiba, o poeta escreve as primeiras páginas endereçadas ao amigo paulista Régis Bonvicino. “(...) depois do Catatau? / não quero mais escrever LIVROS / não quero fazer carreira literária”. Nesta missiva, o poeta impõe-se e move-se em contradições, já que Catatau foi sua primeira prosa e, nos anos seguintes, Leminski teria publicado 18 livros e traduzido oito obras de escritores estrangeiros. Em julho de 1979, a divergência do poeta seria apontada por alguém em Curitiba: “- ué, v. não disse que o catatau ia ser teu último livro? – sim, mas naquela época eu bebia....”. Assim como esta primeira incoerência, destoada na medida que a publicação poética do autor invalida sua própria transcrição, outra questão é discutida na correspondência desses missivistas: a relação de Leminski com os precursores do movimento concretista (leia-se Décio Pignatari, Haroldo e Augusto de Campos). Nas cartas, ora Leminski afirma seguramente que precisa combater alguns interditos que a poesia concreta instalou, ora faz alusão ao seu período concretista, quando escrevia para seus patriarcas e ficava preocupado em saber “o que eles iam achar”.
            Leminski conheceu o trio Noigandres na Semana Nacional da Poesia da Vanguarda, em 1963, por ter afinidade e influência com o repertório do grupo, sobretudo pelos poemas e traduções dos Cantos, de Ezra Pound, feitas por Haroldo de Campos. A reconstituição intelectual e a materialidade da linguagem, com o encontro da voz, som, cor, movimento e elementos não-verbais, deram a tônica inicial para o concretismo e assinalaram a ruptura com o padrão tradicional do verso. Na poética leminskiana, o concretismo contribuiu para “tornar compreensíveis coisas até então incompreensíveis”, como disse o poeta. “(...) nessa época eu era “concretista” / mas eu era uma porção de outras coisas também / e quando deixei que elas agissem mais forte / fiz o Catatau (...)”, escreveu em julho de 1977. 


            Apesar do envolvimento com os poetas concretos, significativo na primeira carta e em algumas observações manuscritas, a visão crítica sobre os patriarcas não demoraria a se manifestar. Em 3 de dezembro de 1976, Leminski se refere ao Plano Piloto para a Poesia Concreta, que sintetizava as ideias centrais do movimento concretista, como “plano piloto que virou pirata”. Mais tarde, em julho de 1977, recorda o alerta de Pignatari: “É preciso acabar com o concretismo. E quem pode fazer isso são vocês”. E observa: “(...) nós já estamos chegando lá (...) já consegui ver a fímbria de algo / que já não é mais concretismo / embora pressuponha e o tenha deglutido (...)”. O poeta demonstra não querer desapropriar as influências dos antecessores, mas potencializá-las e deixá-las agir com outras sustentações, seguindo a prescrição de Matsuó Bashô em Sendas de Ôku: “Não siga os antigos. Procure o que eles procuraram”. Leminski buscava outros valores, através de outras categorias de pensamento e apreciação e, ainda que implícito, revela nas cartas a ânsia de se libertar dos critérios de rigor, da radicalidade poética, das formas, paideumas e experimentos puros.
            A correspondência revela, ainda, o isolamento poético de Leminski na capital provinciana. Diante do distanciamento geográfico de seus interlocutores, o curitibano construía sua “ponte mágica e epistolar”, envelopes em que circulavam revistas, jornais, ensaios e outras publicações, os chamados “pacote/reposta”. A Curitiba do poeta era “simbolista, quieta, caipira, metrópole, tímida, terra de bares e longas encucações, fria, com poentes longos como agonias, não brasileira, de gente que não é pobre nem rica, média, mediana, medíocre”. A exemplo da quase epopeia em que Leminski pensou em ser Homero, Rimbaud, Ungaretti, Fernando Pessoa, Lorca, Éluard ou Ginsberg, e conclui com uma nota melancólica e irônica: “Por fim / acabamos o pequeno poeta da província / que sempre fomos / por trás de tantas máscaras / que o tempo tratou como a flores”.

“P.S. – mostra esta carta a augusto e todo o pessoal senão...”.



[publicado originalmente em DC Cultura, 29 de abril de 2006].

terça-feira, 2 de agosto de 2016

na cabeceira...

Há tempos não mergulhava num autor. Aí outro dia, numa dessas andanças entre sebos e livrarias, comprei Todos os Contos de Clarice Lispector. Ainda que prefira as vozes femininas e que essas fiquem encantadas num certo canto da estante, Clarice nunca passou por aqui. Talvez uma renúncia juvenil que agora rima com falta. 
O fato é que, há pouco mais de uma semana, Clarice tem me acompanhado e deliciado minhas madrugadas e manhãs. Hoje acordei antes do nascer do dia, sentei com ela na poltrona que dá vista para uma árvore perto da janela, e devorei suas primeiras histórias. Aí segue um fragmento do conto Obsessão que, por alguma razão, tem um pouco de mim.  

[(...) aos dezenove anos encontrei Jaime. Casamo-nos e alugamos um apartamento bonito, bem mobiliado. Vivemos seis anos juntos, sem filhos. E eu era feliz. Se alguém me perguntava, eu afirmava, acrescentava não sem um pouco de perplexidade: “E por que não? ” Jaime foi sempre bom para mim. E, seu temperamento pouco ardente, eu o considerava de certo modo um prolongamento de meus pais, de minha casa anterior, onde habituara-me aos privilégios de filha única (...)].

na vitrola...

na vitrola, tua boca, na viola de Itamar Assumpção. 

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O traje último de Cubas

Adormeci com uma ideia fixa e fui desperto por uma ânsia maior. A primeira sensação foi de mal-estar nas vísceras e no âmago; depois, de dúvida. E para mutilar-me de qualquer certeza, assisti Helena, a minha Capitu, vestir-se pela manhã. De felpas negras a meias de algodão. Tentei imaginar as ruelas por onde andavam aqueles saltos rasos. Lembrei que outro dia, ao vestir-se em longas saias e sair sem mais, voltou sem nada, inclusive sem motivos contrários. Imaginar. Ato de coragem e asco. Ela, diante do meu olhar fixo, sorria um riso solto e quanto mais alto era a nota, maior minha convicção. Por certo um adultério. Talvez me falte um propósito. Fosse um homem de incumbências, de hora marcada e camisa engomada, teria valor. Então, saí naquela manhã com a ideia fixa de convalescer-me da traição. Atravessei o mercado e cortei pela avenida dos floristas. Aquela prateleira desengonçada, entre carros atropelando a rotina, numa esquina que rima com encruzilhada. Parei em frente ao antiquário. Helena disse que ali reviveria relíquias da década de 20. O relógio da capela marcava cinco para às nove. O padre já subira e descera a escadaria da capela tantas vezes e nem sinal de Helena. Acenei ao longe como quem busca uma prece. – Bom dia, Bentinho, dirigiu-me a palavra já ao cruzar a rua. Mais quarenta e três minutos em silêncio. Voltei à rua das flores e encostei-me na quitanda da dama-da-noite. Maldito que plantara em mim essa angústia indizível. Esperei Helena por mais de uma hora. Próximo das onze, sem mais, decidi abandonar meu propósito. Comprei meia dúzia de rosas e transpirei na frustrada tentativa de aquietar o temor. – Isso não passa de uma pequeneza, pensei. Irei para casa, porei as flores no vaso e dormirei com a ideia fixa de acordar Brás Cubas. Haverei de saber lidar com a morte.

[velhas letrinhas minhas].

ah, a vida é líquida

É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.

* * *

Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d'água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.

* * *

E bebendo, Vida, recusamos o sólido
O nodoso, a friez-armadilha
De algum rosto sóbrio, certa voz
Que se amplia, certo olhar que condena
O nosso olhar gasoso: então, bebendo?
E respondemos lassas lérias letícias
O lusco das lagartixas, o lustrino
Das quilhas, barcas, gaivotas, drenos
E afasta-se de nós o sólido de fechado cenho.
Rejubilam-se nossas coronárias. Rejubilo-me
Na noite navegada, e rio, rio, e remendo
Meu casaco rosso tecido de açucena.
Se dedutiva e líquida, a Vida é plena.

* * *

Te amo, Vida, líquida esteira onde me deito
Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado
Salpicado de negro, de doçuras e iras.
Te amo, Líquida, descendo escorrida
Pela víscera, e assim esquecendo
Fomes
País
O riso solto
A dentadura etérea
Bola
Miséria.
Bebendo, Vida, invento casa, comida
E um Mais que se agiganta, um Mais
Conquistando um fulcro potente na garganta
Um látego, uma chama, um canto. Amo-me.
Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos
Quando não sou líquida.


(Alcóolicas, Hilda Hilst)

sexta-feira, 29 de julho de 2016

elegia drummondiana

Quando leio teoria, sempre volto à ficção, e vice-versa.

"Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan".

(Carlos Drummond de Andrade, Elegia 1938)

* por ora, só sobrou disposição para falar através da boca dos outros.



sexta-feira, 17 de junho de 2016

comer, verbo intransitivo

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome. O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos. O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina. O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos. Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina. O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água. O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome. O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel. O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso. O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala. O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

(Os Três Mal-Amados, de João Cabral de Melo Neto)


segunda-feira, 6 de junho de 2016

olhe a câmera

Em "O Homem Atlântico", Marguerite Duras narra a fragmentação dos corpos, a morte do amor e o abandono sob uma óptica cinematográfica. 


domingo, 5 de junho de 2016

um pouco de Sylvia Plath

A faceta megalomaníaca e obcecada de Sylvia Plath (1932 – 1963) sempre despertou minha atenção. Uma das principais vozes da poesia norte-americana na década de 1960, a escritora teve muitos poemas rejeitados, ganhou prêmios literários, teve seus textos publicados na revista “New Yorker”, e seu único romance, “A redoma de vidro”, foi adotado em escolas de todo o mundo. 

Na primeira vez que beijou o poeta e futuro marido Ted Hughes, em 1955, numa festa em Cambridge, Plath deu-lhe uma mordida tão forte no pescoço que escorreu um filete de sangue. Na última vez em que Hughes teve notícias do “animal voraz” chamado Sylvia Plath, já separados, ela tinha enfiado a cabeça no forno a gás e provocado a própria morte, aos 30 anos.

As crises de depressão a acompanhavam desde a adolescência e Plath também sofria com a infidelidade do marido. Depois da sua morte, Hughes se apropriou da obra, suprimiu poemas com referências negativas ao casamento, censurou depoimentos e impediu que a história de Plath fosse contada a partir de seus diários, cartas e textos.

Para o jornalista Carl Rollyson, autor de “Ísis americana: a vida e a arte de Sylvia Plath”, que teve acesso a cartas até então inéditas, Plath era dona de um “acachapante desejo de ser o foco da atenção”, e um “farol para a consciência moderna de uma geração”. O autor mostra como, ainda adolescente, ela inventava versões para as histórias familiares, sempre carregando no verniz para que parecessem mais interessantes. Ísis, que dá título à obra, segundo o biógrafo é uma referência à mitologia egípcia, onde Ísis é a deusa da maternidade, simplicidade e magia; ele usa a referência para metaforizar o desejo de Plath de ser mãe, esposa, mantendo a luz própria intacta.


ESPELHO

Sou prata e exato. Eu não prejulgo.
O que vejo engulo de imediato
Tal qual é, sem me embaçar de amor ou desgosto.
Não sou cruel, tão somente veraz —
O olho de um deusinho, de quatro cantos.
O tempo todo reflito sobre a parede em frente.
É rosa, com manchas. Fitei-a tanto
Que a sinto parte de meu coração. Mas vacila.
Faces e escuridão insistem em nos separar.

Agora sou um lago. Uma mulher se inclina para mim,
Buscando em domínios meus o que realmente é.
Mas logo se volta para aqueles farsantes, o lustre e a lua.
Vejo suas costas e as reflito fielmente.
Ela me paga em choro e agitação de mãos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã sua face reveza com a escuridão.
Em mim afogou uma menina, e em mim uma velha
Salta sobre ela dia após dia como um peixe horrendo.



OS DIÁRIOS DE SYLVIA PLATH
Como a vida é um movimento rápido, um fluir continuo, mutante, como estamos sempre a nos despedir, indo a lugares, vendo pessoas, fazendo coisas. Que nada, a busca do tempo passado é mais difícil do que você pensa, e o tempo presente acaba devorado por essas buscas melancólicas. O filme de seus dias e noites está enrolado dentro de você, bem apertado, para nunca mais ser passado – e os flashbacks ocasionais são vagos, desfocados, irreais, como se os visse através da neve que cai. Agora você começa a ficar com medo. Contudo, mesmo nesta era de especialização, de variedade e complexidade infinita e de uma miríade de escolhas, o que você pega para si no saco de surpresas? Gatos tem nove vidas, diz o ditado. Você tem uma.


entre riscos e rabiscos

[Nos períodos difíceis da minha vida rabiscar frases me traz o mesmo conforto que a reza para quem tem fé: através da linguagem ultrapasso meu caso particular, comungo com toda a humanidade. Toda dor dilacera; mas o que a torna intolerável é que quem a sente tem a impressão de estar separado do resto do mundo; partilhada ao menos ela deixa de ser um exílio. (…) Em minha opinião, essa é uma das funções essenciais da literatura: superar a solidão que é comum a todos nós e que, no entanto, faz com que nos tornemos estranhos uns aos outros].


Simone de Beauvoir