sexta-feira, 17 de junho de 2016

comer, verbo intransitivo

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome. O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos. O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina. O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos. Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina. O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água. O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome. O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel. O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso. O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala. O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

(Os Três Mal-Amados, de João Cabral de Melo Neto)


segunda-feira, 6 de junho de 2016

olhe a câmera

Em "O Homem Atlântico", Marguerite Duras narra a fragmentação dos corpos, a morte do amor e o abandono sob uma óptica cinematográfica. 


domingo, 5 de junho de 2016

um pouco de Sylvia Plath

A faceta megalomaníaca e obcecada de Sylvia Plath (1932 – 1963) sempre despertou minha atenção. Uma das principais vozes da poesia norte-americana na década de 1960, a escritora teve muitos poemas rejeitados, ganhou prêmios literários, teve seus textos publicados na revista “New Yorker”, e seu único romance, “A redoma de vidro”, foi adotado em escolas de todo o mundo. 

Na primeira vez que beijou o poeta e futuro marido Ted Hughes, em 1955, numa festa em Cambridge, Plath deu-lhe uma mordida tão forte no pescoço que escorreu um filete de sangue. Na última vez em que Hughes teve notícias do “animal voraz” chamado Sylvia Plath, já separados, ela tinha enfiado a cabeça no forno a gás e provocado a própria morte, aos 30 anos.

As crises de depressão a acompanhavam desde a adolescência e Plath também sofria com a infidelidade do marido. Depois da sua morte, Hughes se apropriou da obra, suprimiu poemas com referências negativas ao casamento, censurou depoimentos e impediu que a história de Plath fosse contada a partir de seus diários, cartas e textos.

Para o jornalista Carl Rollyson, autor de “Ísis americana: a vida e a arte de Sylvia Plath”, que teve acesso a cartas até então inéditas, Plath era dona de um “acachapante desejo de ser o foco da atenção”, e um “farol para a consciência moderna de uma geração”. O autor mostra como, ainda adolescente, ela inventava versões para as histórias familiares, sempre carregando no verniz para que parecessem mais interessantes. Ísis, que dá título à obra, segundo o biógrafo é uma referência à mitologia egípcia, onde Ísis é a deusa da maternidade, simplicidade e magia; ele usa a referência para metaforizar o desejo de Plath de ser mãe, esposa, mantendo a luz própria intacta.


ESPELHO

Sou prata e exato. Eu não prejulgo.
O que vejo engulo de imediato
Tal qual é, sem me embaçar de amor ou desgosto.
Não sou cruel, tão somente veraz —
O olho de um deusinho, de quatro cantos.
O tempo todo reflito sobre a parede em frente.
É rosa, com manchas. Fitei-a tanto
Que a sinto parte de meu coração. Mas vacila.
Faces e escuridão insistem em nos separar.

Agora sou um lago. Uma mulher se inclina para mim,
Buscando em domínios meus o que realmente é.
Mas logo se volta para aqueles farsantes, o lustre e a lua.
Vejo suas costas e as reflito fielmente.
Ela me paga em choro e agitação de mãos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã sua face reveza com a escuridão.
Em mim afogou uma menina, e em mim uma velha
Salta sobre ela dia após dia como um peixe horrendo.



OS DIÁRIOS DE SYLVIA PLATH
Como a vida é um movimento rápido, um fluir continuo, mutante, como estamos sempre a nos despedir, indo a lugares, vendo pessoas, fazendo coisas. Que nada, a busca do tempo passado é mais difícil do que você pensa, e o tempo presente acaba devorado por essas buscas melancólicas. O filme de seus dias e noites está enrolado dentro de você, bem apertado, para nunca mais ser passado – e os flashbacks ocasionais são vagos, desfocados, irreais, como se os visse através da neve que cai. Agora você começa a ficar com medo. Contudo, mesmo nesta era de especialização, de variedade e complexidade infinita e de uma miríade de escolhas, o que você pega para si no saco de surpresas? Gatos tem nove vidas, diz o ditado. Você tem uma.


entre riscos e rabiscos

[Nos períodos difíceis da minha vida rabiscar frases me traz o mesmo conforto que a reza para quem tem fé: através da linguagem ultrapasso meu caso particular, comungo com toda a humanidade. Toda dor dilacera; mas o que a torna intolerável é que quem a sente tem a impressão de estar separado do resto do mundo; partilhada ao menos ela deixa de ser um exílio. (…) Em minha opinião, essa é uma das funções essenciais da literatura: superar a solidão que é comum a todos nós e que, no entanto, faz com que nos tornemos estranhos uns aos outros].


Simone de Beauvoir