quarta-feira, 12 de outubro de 2016

se hace camino al andar

      Outro dia fui à casa da Juliana de bicicleta. Na metade de uma tarde, não lembro se de uma terça ou quarta, ela me convidou para um café. A sensação do pedalar naquele dois e meio quarteirão. Aquela liberdade juvenil. Engraçado como com o passar do tempo perdemos nosso sentido de liberdade, quando pedalar até a casa vizinha já é estar sem amarras. 
Hoje, quando a noite pouco prometia, fui andando para o jantar. Caminhar duas quadras com as chaves de casa e uma garrafa de vinho. Esse caminhar simples da vida, de andar descalço, brincar com um cachorro na esquina. A simplicidade de ir a pé para um jantar. 

{Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.}


Antonio Machado.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Vuelvo al Sur na argentina macrista

     
     Depois da eleição de Macri não voltei mais à Argentina. Nenhuma promessa - apesar do rechaço à política neoliberal do empresário-presidente, mas uma espécie de ressaca portenha. Buenas, eis que sobrevivi os últimos dez dias por lá e as coisas mudaram.  Não tem livro barato nem vinho em conta em restaurante. Também não tem mais Ley de Medios e uma vez ou outra também não pode dar a volta na Plaza de Mayo. Explico.

A Ley de Medios (Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual), que na Argentina de Cristina foi sancionada, retrocedeu. Na minha opinião, a democratização dos meios de comunicação pouco avançou na era K, apesar da aprovação do marco regulatório. A disputa do governo com o grupo Clarín prevaleceu e, em grande medida, a legalização dos canais comunitários só foi liberada no fim do mandato Kirchnerista. Da aprovação da lei, em 2009, à declaração de constitucionalidade pela Suprema Corte Argentina, foram quatro anos de batalhas judiciais. Em outubro de 2013, enfim, a corte declarou constitucional os quatro artigos da lei – 41, 45, 48 e 161 que, questionados pelo setor empresarial, adiavam sua aplicação integral. Está bem que, por meio da legislação, foi possível instalar 152 rádios em escolas, 45 tevês e 53 rádios universitárias, além de criar o primeiro canal na tevê aberta e outros 33 canais de rádios vinculados aos povos originários. Mas, ainda assim, o avanço não foi significativo para a real democratização do setor. O Grupo Clarín não perdeu poder econômico e, ao que parece, no último ano resgatou parte de seu poder político. Agora, além de principal opositor ao Kirchnerismo, torna-se principal porta-voz do oficialismo macrista.

A sorte dos três primeiros canais comunitários da história argentina também acabou suspensa no ar. A Barricada TV e a Urbana TV, de Buenos Aires, e a Pares TV, de Luján, ganharam suas respectivas licenças para operar em TDA (Televisão Digital Aberta), mas o Artear/Grupo Clarín contestou a decisão junto à Enacom (Entidade Nacional de Comunicação, ligada ao Ministério das Comunicações). No caso do canal alternativo e popular Barricada TV, o posicionamento do organismo implicará tomar uma decisão frente à interferência gerada por Artear, empresa do Grupo Clarín, na frequência 33.  A frequência é reservada para emissões em baixa potência e havia sido destinada à Barricada, segundo o Plano Nacional de Serviços de Comunicação Audiovisual Digitais. No entanto, a mesma frequência 33 vinha sendo utilizada pelo Canal 13, do Grupo Clarín, para realizar suas transmissões experimentais em televisão digital sem qualquer concessão estatal. Ou seja, o Clarín interfere nas emissões de um canal sem fins de lucro e impede que a Barricada TV seja transmitida em Buenos Aires como determina a lei.

Desde dezembro de 2015, de acordo com a resolução 1092 do Diário Oficial Argentino, a Barricada TV detém legalmente a licença em TDA sem fins de lucro e baixa potência, o que implica uma área de cobertura de 10,3 quilômetros no canal digital 33.1. Ainda assim, apesar da decisão, uma parte importante da cidade sofre com a interferência da transmissão e assiste tudo em preto e branco ou assiste o Clarín. Ou seja, a interferência só afeta a televisão comunitária e a liberdade de expressão, já que o Grupo Clarín é um oligopólio midiático transmitido em cores.

Ah, o jornal La Nación, fundado há 147 anos e líder no pensamento liberal-conservador do país, tem agora um canal de televisão digital. A proposta do LN+ (La Nación Más) é, segundo a descrição do próprio, uma mistura de atualidade, lifestyle e documentários. Por enquanto, o LN+ é transmitido apenas pela internet, mas, a depender da íntima relação com o governo Macri, logo pode ser beneficiado com a licença de um canal.

A Plaza de Mayo, palco de manifestações políticas e comemorações nacionais, reflete bem o ambiente político do país. Localizada diante da Casa Rosada e pertinho da zona financeira, a praça fica parcialmente fechada diante de qualquer “ameaça à ordem”, com policiamento e estacas de ferro para evitar que os manifestantes se aproximem da Casa Rosada. A impressão de um taxista de San Telmo, que, destaco, votou no Macri, é que o presidente tem medo de manifestações e então bloqueia ruas e avenidas para que os protestos não alcancem a casa grande. Registra-se que, neste dia, não havia mais de 100 manifestantes na praça. O taxista ainda comentou que os periódicos e telejornais do Clarín, conglomerado de mídia que além de impressos tem mais de duzentos canais de televisão e outras tantas emissoras de rádio AM e FM, passam os dias responsabilizando a Cristina Kirchner pelos infortúnios e medidas antipopulares do governo Macri. “Se este semáforo cair, disse apontando para o alto, a culpa será de Cristina”. Outra: “se um pobre morrer na rua, a culpa é de Cristina”. Até aí, nada de novo. Uma Argentina polarizada, que antes vivia a ‘década ganada dos Kirchner’ e hoje resiste à ofensiva macrista, política que já soma 1,4 milhão de novos pobres e que tem o Grupo Clarín como principal opositor a tudo que possa representar un pasito a la izquierda.

Já os livros, que antes abarrotavam a bagagem, foram acomodados na mala sem tirar nem pôr. Me assustei quando vi um livro do esloveno Žižek, por exemplo, à venda por quase cem reais, e os do Cortázar, da edição Alfaguara, numa média de oitenta mangos. Os livros de jornalismo e comunicação editados em Buenos Aires custam entre cinquenta a setenta reais. E nem adianta recorrer ao câmbio paralelo, já que a diferença não é mais tão significativa.

Ah, os vinhos seguem em conta no mercado chino. Aliás, outra notícia da Argentina macrista é que os aposentados, para comprovar que ainda vivem, precisam fazer, mensalmente, uma compra nas grandes farmácias e supermercados (Farmacity e Carrefour, precisamente). Não vale comprar no mercado chino ou na farmácia da esquina, porque esses não garantem sua existência. Na Argentina macrista, a vida só pode ser assegurada pelas grandes redes. Do contrário, a conta é encerrada e o aposentado tem todo um trâmite para reabilitá-la. Isso porque o CEO da Farmacity é agora o adjunto na chefia de gabinete dos ministros. Bueno, bienvenidos à economia de livre mercado da era Macri.