domingo, 29 de janeiro de 2017

porteñidades

Conheci Jaime Ricardo no cinema. Eu, sozinha e de tênis. Ele, solitário e de corbata. Era a exibição de um documentário político na Buenos Aires da Argentina kirchnerista. Numa sala mais vazia que cheia, sentei na oitava fileira, poltrona H, à espreita de quem entra.

Jaime senta ao meu lado. Ainda com a luz acesa, ele, beirando os 80, anuncia que é solteiro.

- Não sou viúvo. Nunca casei.

Apaga a luz. Sobe o som.

Ao fim da sessão, tomamos um café. Jaime não deu trégua. Falou dos negócios que deixou de fazer, de como perde o escasso tempo da vida, do terno que comprou e do amigo que é dono de pizzaria. Não suporta a Kirchner, diz que não há classe média na Argentina, e nada sabe do que penso. Jaime não é bom de ouvido. Ele fala sem parar, pelo calcanhar, e me brindou com três lições nesta última sessão:

1. a retórica às vezes é intima da solidão.
2. a Argentina também sabe fazer filme ruim.
3. é impossível ser feliz sozinho, já disse o poeta.


[recuerdos porteños]

domingo, 22 de janeiro de 2017

sobre livros, memórias e Sirlene

Passava das oito quando bateu à porta. Ela costumava ser pontual no trabalho. Entra, tira o tênis e põe uma sapatilha de plástico com um azul pra lá de desbotado. Um pano semiúmido nas mãos, as unhas vermelhas por fazer. A passagem de Sirlene pela casa sempre altera a ordem das coisas e penso que os autores pressentem sua chegada.
 - (...) é a poeira que acumula nas capas, repete enquanto tira os livros da estante para então voltar a distribuí-los nas prateleiras.  

Suspeito que Sirlene acomode os livros segundo a lógica arguta da textura e da cor. Então, mistura os russos com os autores latinos, Orwell com Frankfurt, ciência política com literatura e teoria do jornalismo com livros de culinária mediterrânea.

Foi assim, enquanto ajeitava os livros acomodados por Sirlene, que reencontrei Graciliano. Para dar início à arrumação, escolho um vinho leve, Nina Simone na vitrola, janelas abertas, alças finas. Compor os livros na estante é quase um ritual sem data. Um reencontro com aquele autor perdido, é percorrer o passado entre linhas, rabiscos e rasuras. Logo na primeira página das memórias do velho Graça, o selo de uma livraria que já não existe e, mais adiante, um trecho com grifo meu dá o tom: “Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício. Acho medonho alguém viver sem paixões”.

Li Graciliano em meio a uma mudança, no sentido literal. Joinville ficava para trás e eu, munida da certeza que tudo daria certo, tomava as rédeas da vida sem saber ao certo o que me esperava. Era julho de 2002 e, naqueles dias, atestava que mesmo a certeza carrega suas dúvidas.

Meu encontro com Graciliano foi em um apartamento pequeno, de um cômodo apenas, dois andares em uma esquina erma que mais parecia uma encruzilhada. Li suas memórias de un tirón, setecentas páginas em uma sequência de três noites mal dormidas entre uma e outra manhã de folga. Eis que aquele romance social e psicológico também fazia notar minhas próprias contradições.

Bueno, Sirlene voltará em uma semana. Até lá, os autores serão outros. Quiçá as dúvidas também.


>>Memórias do Cárcere é uma narrativa envolvente, de autoquestionamento, repleta de contradições e que, publicada postumamente em 1953, não tem um capítulo final. Graça não concluiu a obra.

>>Deste primeiro encontro com o velho Graça até minha viagem a Palmeira dos Índios, no agreste alagoano, passaram quinze anos. No registro ao lado, minha visita à casa do escritor. Graciliano foi prefeito da cidade de 1928 a 1930. 

Benedetti e sua épica do cotidiano

Ellos tienen razón
esa felicidad
al menos con mayúscula
                                     no existe
ah pero si existiera con minúscula
sería semejante a nuestra breve
                                      presoledad

después de la alegría viene la soledad
después de la plenitud viene la soledad
después del amor viene la soledad

ya sé que es una pobre deformación
pero lo cierto es que en ese durable minuto
uno se siente
                    solo en el mundo
sin asideros
sin pretextos
sin abrazos
sin rencores
sin las cosas que unen o separan
y en esa sola manera de estar solo
ni siquiera uno se apiada de uno mismo

los datos objetivos son como sigue

hay diez centímetros de silencio
       entre tus manos y mis manos
una frontera de palabras no dichas
       entre tus labios y mis labios
y algo que brilla así de triste
       entre tus ojos y mis ojos

claro que la soledad no viene sola

si se mira por sobre el hombro mustio
de nuestras soledades
se verá un largo y compacto imposible
un sencillo respeto por terceros o cuartos
ese percance de ser buenagente

después de la alegría
después de la plenitud
después del amor
                          viene la soledad

conforme
              pero
qué vendrá después
de la soledad
a veces no me siento
                                tan solo
si imagino
mejor dicho si sé
que más allá de mi soledad
                                          y de la tuya
otra vez estás vos
aunque sea preguntándome a solas
qué vendrá después
                              de la soledad.


[Soledades, en Antología poética de Mario Benedetti]

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

amor que serena, termina?

Amor que serena, termina?
começa? que nova
velhice o espera para viver?
qual fulgor? amor surgindo

de si mesmo a si mesmo sendo
também memória de si
comendo
de si, que velha

sombra chupará sua nuca? Oh pestes
que visitaram meu país
atacaram se foram
alheias como o vento


[do poeta argentino Juan Gelman, em Amor que serena, termina?]