segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Sobre o desejo e suas armadilhas



Ainda tento me encontrar em meio às investidas do professor Idelber Avelar e à reação das mulheres, correspondentes dele ou não. É uma história que, a meu juízo, diz muito sobre o desejo e suas armadilhas. Neste caso, quem veio a cair na armadilha do juízo público de seu desejo foi o professor. Longe de querer defender ou advogar em favor do prof. Idelber, mas qualquer um pode ter ideias e posturas libertárias e, entre quatro paredes, ou a um clique, cultivar práticas sexuais agressivas com suas parceiras, desde que com o consentimento de ambos. E nesse jogo de sedução, ou no jogo em que um seduz e o outro se deixa envolver, reside uma questão fundamental: a de responsabilizar-se pelas consequências de seu desejo, em vez de se vitimar por elas.
À exceção da conversa com a menor de idade, a qual ele deve responder judicialmente se comprovada, as outras correspondentes do prof. Idelber são mulheres sem qualquer subordinação a ele e dispostas à interação. Até aí, nenhuma ofensa. É uma mulher, casada ou não, que por iniciativa e desejo próprio tem uma interação virtual ativa com um homem a qual ela admira intelectual, físico ou virtualmente. É a mulher livre e dona de seu desejo. 
Se há violência ou opressão quando o professor, ou apenas Idelber, já que não se trata de uma relação professor-aluna, manda uma suposta imagem “obscena” à interlocutora, prefiro me abster de qualquer juízo moral. Para alguns, pode ser visto como uma agressão à mulher; enquanto para outros, trata-se de uma mera violação do bom senso no uso da internet. Para mim, da forma como a denúncia é apresentada na página, é uma repaginação da figura da mulher-vítima-sexo-frágil e do homem-dominador-violento.
“É um ególatra”, adjetivou uma delas. Egotismo não pode ser enquadrado em ação cível e criminal e se apresenta das mais diferentes formas. Quanto ao prof. Idelber, a egolatria também se manifestava na distinta referência que fazia aos maridos das mulheres com quem se correspondia, os chamados cornos que precisam ser amansados. É um tanto improvável ver um homem que foge à defesa de seu gênero. Ao contrário, sempre achei o corporativismo masculino de uma lealdade de causar inveja. Esse sentimento exagerado de seu próprio valor somado ao ato do desejo correspondido, onde ele insinua uma autorização para que a mulher “amanse” o marido, parece causar deleite ao prof. Idelber. Até aí, nenhuma transgressão, apenas uma manifestação pura de egolatria, quiçá uma fantasia, e uma maneira bocó de se firmar na relação.
De certa forma, o que emerge daquela página de denúncias é uma relação de poder estabelecida pelo prof. Idelber e legitimada pelas mulheres. Já o que se lê nas conversas, é uma relação consentida, uma brincadeira até infantil para quem não está jogando, um jogo de palavras e de dois sujeitos adultos que têm desejo, representado cada qual a sua maneira. Aliás, confesso que fiquei perturbada ao ler algumas conversas. Senti que estava violando a privacidade de alguém; assistindo, imóvel, a uma cena a qual não faço parte. Não me constrange o conteúdo, mas não me agrada conhecer parte de um jogo desde a perspectiva de um voyeur, com um panorama editado e sem acesso integral à imagem.
Essa história diz muito sobre o desejo e suas armadilhas. Mostra que cada um deve cuidar e se responsabilizar por suas vontades, independente do sexo. E mostra o quanto algumas feministas, com seus discursos inflamados, e às vezes contraditórios e não menos opressores, negligenciam o desejo e tentam enquadrar uma relação a dois em um manual de conduta moral. Logo ele, o desejo, que carrega uma razão genuína para a liberdade e igualdade entre os gêneros.



terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Inclusão digital dos povos indígenas

Há pouco mais de dois anos, quando acompanhava os desdobramentos da Lei da Mídia Argentina, assisti na Jornada pela Comunicação Democrática, realizada pela Comuna (Comunicadores de la Argentina), outro tipo de abordagem. Lá pouco se falou da batalha entre o grupo Clarín e o governo Kirchner, que na época era pauta permanente na imprensa.

“Eles (grandes grupos monopólicos) têm a história do exercício de poder na comunicação. Nós, de resistência”, resumiu o professor Fernando Borroni, da Escuela Popular de Medios Comunitarios (EPMC), espaço voltado à capacitação dos trabalhadores de rádio e televisão dos meios comunitários e para as organizações sociais. A lei Argentina estabelece que 33% das licenças de rádio e televisão sejam destinadas às organizações sem fins lucrativos, e Borroni, junto a outros tantos milhões de latino-americanos submetidos ao modelo hegemônico de uma CNN, mostrava-se preocupado com a batalha cultural a qual teriam que vencer. Trata-se de “recuperar a linguagem do jornalismo”, repetiu. Ou ainda, acrescento, de criar uma linguagem, uma vez que são setores que nunca tiveram espaço.

O projeto inclusão digital do Instituto de Estudos Latino-Americanos (IELA), voltado à capacitação dos povos indígenas para o domínio da tecnologia audiovisual, é uma iniciativa de resistência e contestação similar ao trabalho da escola argentina.

Inaceitável é que não tenhamos rádios livres e comunitárias para a divulgação da cultura guarani de forma tão massificada quanto a grande mídia cria o consenso e manipula a opinião pública contra eles.

Assista aqui a iniciativa do IELA.