segunda-feira, 3 de abril de 2017

72 gravatas e um par de sapatilhas

Para ser gerente em uma confraria de homens é preciso salto alto. O tamanho pode variar de oito a 15 centímetros, desde que consiga se mover rapidamente. Aquelas que, como eu, preferem as sapatilhas, podem relaxar, pois não é no sapato que reside o desconforto. Apesar de minha pouca altura e aparência despojada, a renúncia ao salto não me impediu de encarar os homens de frente. E tampouco de subir o tom sempre que necessário.

Por cinco anos fui gerente de comunicação em uma federação de classe patronal e, no último, acumulei a função de diretora adjunta. Ali, homens de trinta, quarenta, sessenta e até setenta anos assumem funções e condutas diversas. Vão de bons moços a conselheiros, aprendizes de dirigentes ou simples marionetes manipuladas pelo gozo de permanecerem imóveis. Os que estiverem de acordo, permaneçam como estão, dizia o presidente ao fim da reunião. E ali ficavam, metade parasitas e metade empresários, à espera do jeton que também alimenta a classe empresarial.


Na diretoria dessa federação empresarial não tem mulher. Pode parecer ficção, mas quem já entrou em uma reunião de conselho e diretoria de empresários sabe bem do que estou falando. Setenta e dois homens de terno e em sua maioria de gravata vermelha assistem a uma reunião conduzida por três. Sim, esses sessenta e nove homens também votam, em alguma medida participam, mas boa parte daquela discussão já foi definida pela tríade antes mesmo de entrarem por aquela porta. Não há nada de sugestivo em 69 machos de terno além do número que dá consistência àquele ato ordinário.

Ali, muito aprendi sobre o exercício do poder e como ocupar esses espaços. O poder tem duas faces: a da potência e a da impotência. E para a mulher ser potente em uma confraria de homens é preciso ser um pouco macho também. O exercício do poder em uma entidade de classe empresarial exige força, coragem e condutas agressivas. Conhece aquela expressão “botar o pau na mesa”? Então, para sobreviver precisei ressignificar seu sentido e ir atrás de minha parte amputada.
Homem tem medo de mulher, repetia o diretor. A mulher tem medo de apanhar, penso eu.

É certo que em um ambiente onde os homens prevalecem e as mulheres acabam reduzidas às funções de secretárias, assistentes e assessoras, conviver harmoniosamente nem sempre é fácil. São as diferenças que pesam, é a desigualdade que se manifesta. Somos naturalmente socializadas para desenvolver comportamentos dóceis, cordatos e, em muitas situações, até subservientes. Os homens, ao contrário, sempre vinculados à força, são estimulados e preparados para o exercício do poder. A meu juízo, são algumas de nossas diferenças que, apoiadas na tradição, acabam por justificar e naturalizar desigualdades gritantes.

Contra isso é preciso elevar o tom. Sobre ter voz, uma de minhas experiências mais significantes aconteceu em uma reunião de vice-presidência regional, quando todos os problemas da classe empresarial foram atribuídos à suposta ineficácia da comunicação. Tal qual os outros gerentes, eu tinha que render contas do meu trabalho e, ainda que assuntos de ordem jurídica, sindical e financeira tivessem maior abrangência e impacto na política da entidade, fui hostilizada do início ao fim por um grupo de dirigentes patronais. Eu entendia a razão do escracho dirigido a mim e, de igual modo, sabia que não era a comunicação empresarial o cerne do problema, mas resolvi jogar aquela partida. Em minha defesa, apontei a ausência de diretriz e de ação política e a lentidão com que as coisas eram decididas. Fui interrompida inúmeras vezes. Interrompi outras incontáveis como se fosse um bate-boca de bar. Outros diretores mantiveram-se em silêncio, quase em óbito, apenas virando a cabeça de um extremo ao outro da mesa assistindo a verborragia. Naquelas circunstâncias não era a questão de classe que gritava. Era a desigualdade de gênero que despontava. A classe empresarial, da qual participam também aqueles trabalhadores que ideologicamente se mantém alienados e firmes na defesa do patronato, pouco discorda entre si.  É um conjunto de condutas e acordos tácitos que impede que eles discordem por muito tempo. Assim, para manter a cordialidade entre os seus, o que é mais ameno e confortável? Apunhalar a mulher.
Ao fim da disputa, no intervalo para o café, os machos estavam dóceis e apaziguadores. – Então hoje te pegaram para cristo, um deles fez graça. Não, apenas somaram as nossas diferenças de classe à nossa desigualdade de gênero.

Logo que assumi a função, um diretor fez referência à minha roupa. Muito linho e algodão para pouca alfaiataria. Tal como o terno escuro, camisa branca e gravata vermelha dão ar de confiabilidade e poder ao sujeito, a alfaiataria e o salto alto estereotipam o mesmo. Resisti com meu jeans e sapatilha. É uma situação a qual nem sempre sabemos e podemos responder. A garantia do emprego é também uma necessidade vital, e isso vale tanto para mulheres como para homens sujeitos à exploração e à dominação.

Nessa entidade de classe os homens não têm medo de cometer assédio. Talvez o patriarcado esteja de tal modo incrustado que eles não percebam sua significação e suas implicações. Ou também se apoiam no pequeno poder como garantia de impunidade. Mandam flores, fazem pequenas investidas, elogios, cantadas, piadas sexistas, tentam, tentam e uma vez mais tentam. E as mulheres muitas vezes calam, toleram e naturalizam o absurdo por medo de cometer uma indelicadeza com o chefe. Perdoem-me as manas, mas nessas horas a sororidade só existe no dicionário. Diante de uma estrutura de poder sexista, a anuência das mulheres em torno do macho é muitas vezes vista com naturalidade, enquanto a empatia entre as mulheres é quase privilégio da lucidez política.

Aquele “homem tem medo de mulher” ainda martela em mim agora. De fato, é como alertou Galeano numa tirada psicanalítica: “el miedo de la mujer a la violencia del hombre es el espejo del miedo del hombre a la mujer sin miedo”.

[Texto publicado no Catarinas, portal especializado em jornalismo com perspectiva de gênero. No Portal Catarinas, pode ser lido aqui]. 

sábado, 25 de março de 2017

divagações

Florianópolis me rendeu um diploma, uma síndrome maltratada e uma dúzia de perdas. Em doze anos, nove mudanças. Lembro da geografia de cada quarto, da posição do armário (ou da falta dele), da escrivaninha junto à janela com vista para a sala do vizinho. Fui de quarto sem mobília a apartamento com suíte e churrasqueira na sacada. Em cada mudança, um vaso quebrado, uma gravura perdida, um sofá que já não cabia. E se toda mudança carrega suas perdas, também traz uma dose de perplexidade. São os ruídos da noite, toda parafernália por instalar, prender ou furar. São as chaves que não abrem aquelas portas, o correio que não chega e também o CEP que esqueço de lembrar. E diante de tantas intempéries, a dúvida toma de assalto: precisava tanto?! Ao fim, e como diriam os franceses: Plus ça change, plus c’est la même chose.

sábado, 11 de março de 2017

uma experiência antianalítica

        Na antessala do divã, ela antecipava a sessão.  À espera, sentada num sofá de dois, uma música tocava alto e dividia as notas com a lima da pérsia que discretamente perfumava o ambiente.  À sua frente, uma reprodução barata dos girassóis de Van Gogh. Ao lado, a mesa amarela que servia de apoio às lamúrias e queixumes cedia espaço para os contos de Borges. Lembrara, então, o porquê de estar ali. Sonhava em castelhano. Lia Cortázar antes de dormir e, a princípio, pensava que isso perturbava suas noites insones. De imediato, tentou abandonar o último round e encarar aquele velho tomo de Virgina Woolf. Tentaria também o suicídio? Lembrou do teacher do colégio, que se dizia PhD em Plath e Joyce e quando embasbacado punha as mãos a rezar e repetia unbelievable!. Ahhh, aquele colégio cristão e seu inconfundível uniforme azul. Afinal, por que sua mãe insistia na bainha da saia nos joelhos? Saberia ela seu real tamanho?

Pega o livro de Borges. Na dedicatória, em letras miúdas:

[Helena,
Borges haveria de celebrar este nosso reencontro.
com amor,
JL]

Um desencontro que repete um antigo encontro. JL de Jorge Luis. Demasiadamente óbvio, pensou.  A porta se abre e um homem atravessa a antessala. Gordo, choroso, em crise. Eu não tenho problemas, pensou. O que fazia ali? Sonhava em castelhano, apenas. Bastaria ler Cortázar pela manhã. Já não tinha o hábito de repetir roupas e menos ainda encontros. Usava saias no joelho por opção e não mais pela imposição de sua mãe. JL de Jacques Lacan!, matou a charada.

Ele abre a porta e a chama. Para ela, a sessão já estava terminada.      


domingo, 26 de fevereiro de 2017

A imparcialidade dos tribunais diante do espírito capitalista

 “Eu sempre acreditei na Justiça”, declarou Paulo Maluf um dia depois de o Tribunal de Justiça ter limpado sua ficha. De fato, o deputado não tem do que se queixar. Acusado de formação de quadrilha, corrupção passiva, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e réu em duas ações penais no STF, o ex-prefeito de São Paulo nunca foi preso e sua afirmativa virou bordão repetido por políticos e empresários em busca da absolvição.
Lembrei de Maluf nesta quarta, 22, numa audiência na Justiça do Trabalho. Até tentei reproduzir um “estou aqui porque acredito na justiça”, mas são poucos os que podem desfrutar dessa confiança. No banco dos réus, uma federação sindical que representa os interesses dos empresários. De um lado, meu advogado e eu; do outro, a juíza, seu escrivão e os representantes do patronato. As provas eram consistentes, mas, segundo a juíza, “a natureza da ação era sui generis”. Na minha opinião, sui generis foi a própria audiência.
            A primeira tentativa é o acordo. Ou da conciliação de classes, diria. - Doutores, vamos economizar o nosso tempo, começa a juíza. Como de praxe em uma audiência de negociação, apresentam-se os valores. Ao primeiro número apresentado pelo réu e diante da minha enfática negação, a juíza calcula: - Você poderia comprar três carros populares. E intervém:

- Você parece certa da vitória.
- Não estou certa da vitória, mas sei da legitimidade da ação e ainda confio na justiça.
- A justiça também comete injustiças, diz a magistrada.
- Claro, vide a situação do país.

A juíza pede que os representantes do réu se retirem da sala. E ela própria, sem inibição, assume a defesa patronal. Eis que resplandece o caráter sui generis da audiência. Numa ofensiva, tentou me convencer que jamais conseguiria um acordo melhor e que deveria “ficar feliz” com 54%. Afinal, poderia comprar três carros populares (!). Repetiu que por se tratar de uma ação sui generis não poderia assegurar qual seria a decisão de uma instância superior e que se tratava de “muito dinheiro”. A juíza alegava que por eu não estar no país não poderia reclamar salário integral.

- Eu não trabalhava na indústria, não estava em uma linha de produção, razão pela qual meu trabalho poderia ser feito de qualquer lugar.
- Sim, entendo. Mas parece que a você está querendo ganhar dinheiro com essa ação.
- Quero o que é meu direito. Quero receber pelo meu trabalho.
- Bom, neste caso, qual seria o acordo possível, pergunta a juíza representante da classe patronal.

Apresentei o cálculo para uma negociação, o que chegaria a mais ou menos 80% do valor da ação.

- Impossível, disse a juíza soltando a caneta bic na mesa, num gesto de impaciência buscando com o olhar a cumplicidade do escrivão.
- Isso não seria um acordo, repetiu a juíza e começou a enumerar os custos da empresa, que “além do valor devido, teria que arcar com outros impostos e encargos”. Ela parecia incorporar o bordão dos capitalistas, para quem é impossível produzir nesse país com essas leis.
- Dane-se. Esses encargos não competem a mim e a senhora tampouco deveria se preocupar com eles, respondi.
- Bom, doutora, esses são os nossos números. Do contrário, vamos ouvir as testemunhas e dar seguimento ao processo, ratificou meu advogado.

A juíza ordena que os representantes de direito e de fato retornem à sala de audiência, mas resistiu e não cedeu espaço à representação da classe patronal.

- 80% do valor da causa, disse, incrédula, dirigindo-se à advogada do réu.

Começa o misancene. A advogada patronal diz que teria que consultar o diretor, que este valor não estaria autorizado e que faria essa consulta por telefone. A juíza tentou intervir até na consulta e voltou a defender os 54%.
- A senhora pode permitir que a advogada consulte o diretor, por gentileza?

Para a infelicidade da juíza, o réu aceita o acordo. O escrivão dá prosseguimento a ata, o ambiente fica aparentemente descontraído, as testemunhas são dispensadas e a juíza insiste:

- Como você vivia em Buenos Aires? Viver em Buenos Aires é caro. Tem aluguel, alimentação, compra de livros...

A pergunta não era mera curiosidade. A juíza teimava e, inconforme com a derrota do réu, ainda lutava pela causa perdida. A sua dúvida tinha um pressuposto claro: como poderia eu reivindicar um direito trabalhista sem amparo na realidade? A juíza supunha que eu estava empregada em outro país, fato que anularia minha defesa de trabalho efetivo sem salário por um ano. Afinal, como ela havia alertado, existe “trabalho colaborativo” ou “vínculo empregatício fundado na parceria”.

Em circunstâncias semelhantes, pensei nos demais trabalhadores à procura da justiça do trabalho para reparar algum direito. No ano passado, foram três milhões de reclamações trabalhistas. Para muitos deles, é a última tábua de salvação de uma justiça ainda considerada trabalhista. Esses comparecem ao tribunal premidos por necessidades elementares que afogam o cotidiano no desespero e os levam a aceitar acordos injustos. São reféns desse novo espírito que já domina os tribunais antes mesmo dos políticos burgueses decretarem o fim da era dos direitos do trabalho.



domingo, 19 de fevereiro de 2017

uma crônica inospitaleira

Acumular quedas, eis minha especialidade. No último sábado, com 39.7 graus de febre, experimentei tombar para trás sem apoio. Não consegui evitar a queda e 16h50 dei entrada na emergência do hospital. Inospitalidade. Não há ambiente mais inóspito que o hospital. E àqueles que pouco confiam na medicina e não tem um médico para chamar de seu, padecem ainda mais. Meu diagnóstico.
- Sinto dor, tontura, frio. Desmaiei duas vezes em menos de oito horas. Tenho sono.
E nada vem do outro lado. Nem um suspiro nem um alento. O médico não acolhe o sofrimento. Talvez amparar a dor do outro tenha sido eliminado do último código de ética. Ou pareça um tanto proustiano desejar um “vai ficar tudo bem”, assertiva que ali teria o gosto daquele beijo de boa noite da mãe.
- Preciso de exames.
Um enfermeiro capaz de me provocar algum riso me acompanha. Ele conta que foi estagiário no Carandiru e de lá seguiu para o Pinel. – Os caras saem de lá pior que entram, dizia enquanto me acomodava na maca. Espero que não se repita comigo, pensei. Eis que o enfermeiro capaz de me provocar algum riso começa a me furar. Três agulhadas, 750mg de paracetamol e uma recomendação: você precisa urinar. Preferi dormir. Acordei com aquele olhar blasé à la fim de plantão. – Teus exames não estão bons. Preciso de uma tomografia.

- Prenda o ar nos pulmões. Agora respire, ordenou a máquina.

Por sete minutos, num vaivém de quem entra e sai do claustro, mantive os olhos fixos no teto e aquela sensação indistinta que um cenário inquietante pode trazer. Pensei no que ainda não vivi, no que ainda está por vir, naquilo que me falta. Uma voz feminina interrompe: - Vou soltar o contraste. Você vai sentir calor, o corpo formigar e vontade de urinar. Pense em algo bom. Pensar no tom azul, uma mansidão capaz de acalmar a alma. Soava poético para mim.

Não há leito confortável dentro de um hospital. Mas a aspereza não está nos lençóis que cobrem a maca, na dor que grita ao lado, na mortalidade e no meu espanto. A dúvida é que consome. Sairia dali? Provavelmente, pensava. Ainda assim, é tênue a linha que separa a incerteza da racionalidade. Naquele instante, a única certeza é a da trégua. É preciso parar, respirar e soltar o ar dos pulmões. Sem ajuda de aparelhos. 

domingo, 29 de janeiro de 2017

porteñidades

Conheci Jaime Ricardo no cinema. Eu, sozinha e de tênis. Ele, solitário e de corbata. Era a exibição de um documentário político na Buenos Aires da Argentina kirchnerista. Numa sala mais vazia que cheia, sentei na oitava fileira, poltrona H, à espreita de quem entra.

Jaime senta ao meu lado. Ainda com a luz acesa, ele, beirando os 80, anuncia que é solteiro.

- Não sou viúvo. Nunca casei.

Apaga a luz. Sobe o som.

Ao fim da sessão, tomamos um café. Jaime não deu trégua. Falou dos negócios que deixou de fazer, de como perde o escasso tempo da vida, do terno que comprou e do amigo que é dono de pizzaria. Não suporta a Kirchner, diz que não há classe média na Argentina, e nada sabe do que penso. Jaime não é bom de ouvido. Ele fala sem parar, pelo calcanhar, e me brindou com três lições nesta última sessão:

1. a retórica às vezes é intima da solidão.
2. a Argentina também sabe fazer filme ruim.
3. é impossível ser feliz sozinho, já disse o poeta.


[recuerdos porteños]

domingo, 22 de janeiro de 2017

sobre livros, memórias e Sirlene

Passava das oito quando bateu à porta. Ela costumava ser pontual no trabalho. Entra, tira o tênis e põe uma sapatilha de plástico com um azul pra lá de desbotado. Um pano semiúmido nas mãos, as unhas vermelhas por fazer. A passagem de Sirlene pela casa sempre altera a ordem das coisas e penso que os autores pressentem sua chegada.
 - (...) é a poeira que acumula nas capas, repete enquanto tira os livros da estante para então voltar a distribuí-los nas prateleiras.  

Suspeito que Sirlene acomode os livros segundo a lógica arguta da textura e da cor. Então, mistura os russos com os autores latinos, Orwell com Frankfurt, ciência política com literatura e teoria do jornalismo com livros de culinária mediterrânea.

Foi assim, enquanto ajeitava os livros acomodados por Sirlene, que reencontrei Graciliano. Para dar início à arrumação, escolho um vinho leve, Nina Simone na vitrola, janelas abertas, alças finas. Compor os livros na estante é quase um ritual sem data. Um reencontro com aquele autor perdido, é percorrer o passado entre linhas, rabiscos e rasuras. Logo na primeira página das memórias do velho Graça, o selo de uma livraria que já não existe e, mais adiante, um trecho com grifo meu dá o tom: “Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício. Acho medonho alguém viver sem paixões”.

Li Graciliano em meio a uma mudança, no sentido literal. Joinville ficava para trás e eu, munida da certeza que tudo daria certo, tomava as rédeas da vida sem saber ao certo o que me esperava. Era julho de 2002 e, naqueles dias, atestava que mesmo a certeza carrega suas dúvidas.

Meu encontro com Graciliano foi em um apartamento pequeno, de um cômodo apenas, dois andares em uma esquina erma que mais parecia uma encruzilhada. Li suas memórias de un tirón, setecentas páginas em uma sequência de três noites mal dormidas entre uma e outra manhã de folga. Eis que aquele romance social e psicológico também fazia notar minhas próprias contradições.

Bueno, Sirlene voltará em uma semana. Até lá, os autores serão outros. Quiçá as dúvidas também.


>>Memórias do Cárcere é uma narrativa envolvente, de autoquestionamento, repleta de contradições e que, publicada postumamente em 1953, não tem um capítulo final. Graça não concluiu a obra.

>>Deste primeiro encontro com o velho Graça até minha viagem a Palmeira dos Índios, no agreste alagoano, passaram quinze anos. No registro ao lado, minha visita à casa do escritor. Graciliano foi prefeito da cidade de 1928 a 1930.