segunda-feira, 4 de setembro de 2017

“Os leitores têm que saber onde estou e de onde falo”

Mario Wainfeld é um tipo macanudo. Assim foi descrito por meia dúzia de jornalistas e militantes quando contei que o encontraria. Conhecido como um dos colunistas de política mais importantes da Argentina, Mario Wainfeld tem uma trajetória singular. Com formação jurídica, foi advogado por 25 anos e cursou dois anos de pós-graduação em Ciência Política na Universidad del Salvador, mas nunca escreveu a tese. Foi professor de direito político, privado e constitucional e também deu aulas de introdução a ciências sociais e de jornalismo. Foi militante político, mas segundo ele mesmo reconhece, “sou melhor escrevendo que conseguindo filiados”. 
Há 20 anos, Wainfeld escreve semanalmente para o Página|12, jornal progressista especialmente dedicado às causas de direitos humanos, e aos sábados conduz as três horas do programa Gente de a pie na Rádio Nacional. Em média, publica dois textos de análise política aos domingos e escreve uma nota por semana. Nas semanas próximas às eleições, escreve de domingo ao domingo. Aos 68 anos, produz uma média de 130 notas por ano, a maioria de política, mas também é incentivado a escrever na editoria de artes e cultura e sobre futebol nos dias de partida.
Atualmente, lê os clássicos das ciências sociais e da história do pensamento político e recorre à ficção quando percebe que está muito bruto. “Quando escreves muito, por ofício, perdes um pouco a liberdade”. Então, lê obras de jornalistas contemporâneos, como Jorge Fernández Díaz, e permanentemente revisita as obras de Borges, Rodolfo Walsh, Philiph Roth, Calvino, Cortázar, Carpentier, este último, confessa, “um pouco atrasado”. “São livros que me encantam e alguns contos poderia citar de memória, ou quase de memória”.
No final do ano passado, Wainfeld lançou o livro Kirchner, el tipo que supo, agora em sua sexta edição pela Siglo Veintiuno. Ele, que já publicou artigos e textos em compilados com outros autores, tem na biografia de Néstor Kirchner seu primeiro livro.
Diferente do que alguns poderiam imaginar - inclusive eu, Néstor Kirchner não lidera a lista de Wainfeld dos políticos macanudos, modo como os argentinos caracterizam uma pessoa estupenda, magnífica. Logo no começo da conversa, Mario Wainfeld tratou de esclarecer: “Em geral, é difícil chegar a um tipo macanudo. Há gente agradável e de bom trato. Eu acho que ter muito poder faz disso quase algo incompatível. Mas se eu tivesse que eleger um tipo, Marco Aurélio Garcia me parece imbatível nesse sentido. Tem ânsia de discutir, ânsia de persuadir, mas não chega dizendo ‘eu sei tudo’. E ele sabe tudo”. Marco Aurélio Garcia, fundador do PT, ex-assessor de Lula e Dilma e um dos pilares da política externa durante os governos petistas, o macanudo emblemático de Wainfeld, morreria três dias depois da entrevista.
Em duas horas de conversa no Lucio, tradicional café de Palermo a poucas quadras de sua casa, o colunista de política do Página|12 falou de jornalismo e da construção da notícia, do kirchnerismo e militância, reiterou suas preferências e posições políticas e comentou a situação política na América Latina.


“Há um refluxo de uma onda conservadora no mundo”
É preciso evitar uma generalização muito drástica da situação latino-americana, sem deixar de advertir que há questões que mudaram. Minha impressão, por razões que teria que desenvolver, mas que muito rapidamente somaria dois ou três fatores. Um é o grande ciclo de matéria prima que encontra não um fim, mas uma estafa. O outro ponto, este mais sofisticado, é que há um momento de crescimento econômico e de ascensão de setores sociais que é eficaz e exitoso em muitos sentidos para os pobres, indigentes, setores médios. Entendo que a partir daí e em paralelo com a questão das commodities, mas com uma lógica própria, é que surge outra estrutura social e outras demandas mais sofisticadas e mais exigentes com setores ascendentes que pensam diferentemente. A outra questão é o próprio esgotamento do ciclo político, da novidade, da capacidade de inovar de diferentes forças políticas. Há um refluxo de uma onda conservadora no mundo, estruturado a partir de um conjunto de fatores próprios e também endógenos.

Jornalistas autodidatas, mas muito bem formados
Não conheço a formação no Brasil. Leio os jornais, mas em assuntos mais direcionados à conjuntura. Não sei distinguir a realidade da formação de jornalistas dos dois países. Acredito que na Argentina há uma questão diversa. Muito dos jornalistas que trabalham tem uma tendência, e talvez isso seja geracional, de ser autodidatas em sua formação, mas muito bem formados. Não têm uma formação específica, mas sabem mais de direito que os advogados e sabem de economia como muitos economistas. Da nova geração, por exemplo, me parece que varia. No Página|12, a imensa maioria dos jornalistas que ali trabalham têm formação universitária e não todos em jornalismo. Muitos têm formação em outra carreira.
Fui chefe da editoria de política do Página|12 por sete anos, de 1997 a 2004, nessa época havia um acordo de estágio com a Universidade Buenos Aires (UBA), que deve continuar existindo, e também com o Colégio Nacional de Buenos Aires, que é secundário. Dali saiam alunos qualificados que passaram a trabalhar com jornalismo, alguns viraram jornalistas destacados. Eu, particularmente, preferia que não estudassem exatamente comunicação social.  Claro, não era um fator excludente, mas eu aconselhava aos alunos que se envolvessem em carreiras mais amplas, sociologia, ciência política, história.
Hoje, no Página|12, muitos dos jornalistas têm formação específica na área em que atuam. Em economia, quase todos os jornalistas são economistas graduados, em política também muitos têm título em ciência social. Acho positivo que não haja nenhuma regra, nenhuma norma, em relação a isso. É importante que o jornalista tenha um grau de formação, mas também depende muito do tipo de cobertura e do tipo de trabalho que vai fazer.

“Lidar com a objetividade é muito difícil”
Eu venho da participação política da militância. Militei no peronismo por muitos anos e penso coisas muito parecidas, apesar das variações que traz o tempo e das mudanças de época. Tenho um pensamento que é de matriz nacional popular com formação peronista. Fui peronista, renunciei à minha filiação peronista algumas vezes e com mais precisão quando Menem decretou o indulto aos militares, no fim dos anos 1990. Então me desvinculei do peronismo e renunciei ao cargo de funcionário que tinha (no partido). Tenho ligação com o peronismo, um compromisso muito forte com os direitos humanos, e isso me aproximou do kirchnerismo, em parte porque o kirchnerismo adotou como política de Estado aquilo que eram reinvindicações da sociedade civil e de posições minoritárias. Então, majoritariamente o acompanhei. Se fui ou se sou kirchnerista? Cada um pode definir como queira. Eu diria que, basicamente, sim. Ainda que tenha estado mais de acordo com algumas políticas do que com outras, mais em alguns momentos do que em outros, e sobre isso escrevo permanentemente. Minha impressão é que lidar com a objetividade é muito difícil. Na minha opinião, o primeiro que deve fazer um colunista político é dizer o que pensa para o público saiba aonde está e partir daí possa discernir. Ou seja, eu penso isso. Os leitores têm que saber onde estou e de onde falo.

A construção da notícia
Passado o conflito com o kirchnerismo, o Clarín baixou muito sua qualidade jornalística e tem mudado, inclusive. Eu não sei o impacto que tem isso nas vendas, mas o Clarín tem perdido, como meio de comunicação, uma capacidade que tinha, e que quando eu era editor (no Página|12) era uma característica muito provocativa, desafiante e preocupante, de estar sintonizado com as pessoas comuns da Argentina. Clarín apoiou a ditadura, defendeu governos e fez coisas espantosas, mas era um companheiro de existência da classe média argentina e tratava de não irritar o leitor. Hoje, é tamanho o nível de conflito, que se transformou em um jornal que quer indignar seus leitores, obviamente não contra o governo atual, mas sim contra o anterior. Isso o transforma em um jornal muito chocante e pobre de informação, inclusive. Segue tendo alguns bons jornalistas, acredito que os correspondentes estrangeiros se defendam melhor, talvez porque tenham mais tranquilidade.
O La Nación acho que é diferente. Algumas das notícias têm uma boa apuração - e na editoria de política isso também ocorre, o jornal tem uma parte informativa forte, mas, dito entre aspas, o “La Nación nunca se equivoca editorialmente”. O La Nación tem uma linha editorial há muitos anos e, mesmo quando erra, “nunca se equivoca”.
A questão é que na Argentina de hoje e muito devido à construção do relato jornalístico, se você arma uma discussão sobre um esporte secundário como o polo, por exemplo, em seguida se transforma em uma discussão sobre kirchnerismo e anti kirchnerismo. Então, tudo se resume a isso em uma sociedade muito complexa. Isso é assombroso.

Relação com fontes e com leitores
A construção da notícia supõe conversas por telefone ou pessoalmente e também em off. Eu particularmente gosto muito de fazer pessoalmente, prefiro ver o protagonista e manter conversas com especialistas em questões trabalhistas e previdenciárias, a depender do que vou escrever. 
Desde que comecei a trabalhar na rádio percebi que o trabalho do jornalismo impresso está distanciado do público. Então, ao pé de minhas notas, coloco meu endereço de e-mail e faço algo não muito comum que é responder a todos. Em geral, os leitores fazem comentários ou críticas por não concordarem com determinada opinião ou ainda quando gostariam de aprofundar o tema. A partir daí comecei também a perceber uma espécie de rede caótica, mas também muito interessante, de pessoas que trabalham em realidades sociais distintas de um mundo que conheço pouco. Tenho uma casa, um carro e um trabalho. Isso me coloca em uma situação privilegiada da classe média argentina. Sou um dos 20% que desfrutam dessa condição. Não gosto de estar aí, mas estou. Então, às vezes me falta informação e percebo que conheço mais ministros de saúde que médicos de hospitais. Comecei a pensar nisto e aproveitar sobretudo o público do Página|12, que é de leitores interessados e capacitados – muitos são trabalhadores sociais e docentes –, e passei a questioná-los sobre o que acontece nesses ambientes, que realidade veem. E tenho uma relação com uma média de 30 pessoas com as quais tenho um contato frequente e que me abrem possibilidade para uma perspectiva que não tenho. Essas pessoas, além de fontes de informação, são parte de uma boa amostra existencial.

“Não tenho nem boa e nem má relação com o atual governo”
Os governos argentinos, com alguns matizes e diferenças, têm seu veículo e um elenco de jornalistas com quem conversam mais e menos. É mais fácil ter fontes no Congresso, deputados e senadores são mais abertos a conversar e falam de outra posição. Eu poderia fazer uma escala, que não é linear, de quais governos tive melhores ou piores fontes. Não é tão óbvia como alguns poderiam pensar. O kirchnerismo tampouco foi uniforme nisso. Eu tive acesso a fontes fundamentais e a melhores informações durante o primeiro governo de Kirchner do que no segundo de Cristina, por exemplo. Em parte, porque me parece que o governo de Néstor Kirchner falava mais com os jornalistas. Cristina atendia menos à imprensa e isso era uma característica que sempre teve.
Os peronistas são mais dados a falar que os radicais (políticos da UCR, Unión Cívica Radical). Os macristas são astutos para lidar com isso. Ou seja, abrem um pouco a conversa, mas não contam nada relevante ou reservam o relevante para os outros. Essa é a lógica, nunca me ofendo por isso ou pelo ministro tal ou o presidente que atende ou não atende. O presidente Macri não atende o Página|12 há dez anos, desde que foi prefeito de Buenos Aires. O macrismo tem um apoio midiático muito importante dos meios mais poderosos, que são os grandes atores econômicos. O Clarín, por exemplo, é uma das dez empresas maiores na Argentina, não é apenas um jornal, é uma empresa multimídia. Além disso, o macrismo é mais severo com os meios opositores e, em termos, é mais sofisticado que o kirchnerismo, tenta dirigir a pauta jornalística, os persegue, às vezes discute a gritos e às vezes não os deixa viver.

A Argentina macrista
Na Argentina havia um consenso que o dirigente político devia ter uma espécie de pertencimento social, representar certas coisas. Eram pessoas de classe média, ascendentes, e não pessoas ricas como Macri. Na minha opinião, o imaginário social se fez muito mais flexível a certos ideais e características da direita que antes rechaçavam “naturalmente, automaticamente, dinamicamente”. Sinto que há uma espécie de fadiga. Como pode ocorrer que as classes médias ou classes médias baixas, formadas basicamente por trabalhadores de fábrica e vítimas da injustiça social, migrem politicamente para o macrismo? Eu não sei.


Entrevista publicada no Portal Desacato, da Cooperativa Comunicacional Sul. No Desacato, pode ser lida aqui.


sábado, 15 de julho de 2017

Lula à moda argentina

“O povo não ficará sem Lula”, “condenação aos golpistas e liberdade para o Brasil”, “Lula expressa a esperança para o Brasil”, foram algumas das palavras de ordem difundidas por movimentos sociais e partidos políticos na Argentina após a condenação de Lula a nove anos e seis meses de prisão. No dia seguinte à sentença de Moro, Lula estampava a capa dos principais jornais argentinos e era pauta no metrô, no café da esquina e até no mercado chino. Enquanto alguns comparavam o ex-presidente com a “também injustiçada e vítima de perseguição política” Cristina Kirchner, outros reclamavam por “um Moro argentino” e por “uma justiça que não seja impune”.

Na quinta-feira, 13, na capa dos jornais Clarín, La Nación e Ámbito Financiero, Lula figurava como o político de maior expressão no Brasil que é condenado por corrupção e está ameaçado de voltar ao poder em 2018. Em um primeiro vistazo e para um leitor comum, há relativo equilíbrio na construção dos relatos, apesar das convicções políticas e ideológicas que esses jornais representam.

Em três páginas de reportagem, o conservador La Nación foi o que tratou de aprofundar os recentes fatos políticos, apresentando uma linha do tempo com os prazos judiciais e eleitorais, a apuração de um e outro dado da sentença judicial, uma breve avaliação do impacto da condenação de Lula no Kirchnerismo e contou com a já conhecida opinião de Ricardo Noblat e uma análise do correspondente do La Nación no Brasil, Alberto Armendáriz. Este, a partir de relatos de professores da UNB e da USP - ambos com citações precisas e até condizentes à realidade brasileira, construiu uma narrativa para aquilo que chama de “crise sistemática”, fez um resumo do envolvimento dos principais partidos e líderes políticos na corrupção e colocou Marina Silva e Ciro Gomes como aqueles que “talvez tenham margem para ganhar as eleições se Lula ficar inelegível”. Em um ato no mínimo herege, o correspondente argentino termina sua análise com uma citação do marxista Gramsci. Nos jornalões do Brasil, penso eu, a ousadia dos analistas políticos é buscar respaldo e erudição em uma cita de Olavo de Carvalho, a expressão do conservadorismo brasileiro.

Já o diário Ámbito Financiero, especializado em economia e dirigido ao setor empresarial, referiu-se a Moro como o “juiz anticorrupção”, dirigiu a análise à classe empresarial, "que parece preocupada apenas com a aprovação das reformas”, e questionou a legitimidade de Temer e dos deputados para seguir com as contrarreformas. Com material produzido pelas agências EFE e AFP, a edição trouxe ainda uma biografia de Lula e de Moro e não deixou escapar o viés político do julgamento e a estrela política em que se transformou o juiz de Curitiba.

Enquanto isso, no editorial do Clarín, jornal do maior conglomerado de mídia da Argentina, o editor reforça que além das fronteiras geográficas, também separam os dois países o limite que o Brasil coloca para a corrupção. Tal como fazia à época em que Dilma e Cristina eram as presidentas, o Clarín aproveita os ajustes de Temer e agora as sentenças da justiça brasileira para mostrar o quanto eles, os argentinos, caminham a passos lentos em algumas medidas.

Para os que não acompanham de perto a crise brasileira e a condução da operação Lava Jato e das sentenças proferidas por Moro, o La Nación pode parecer convidativo. Isso porque a técnica jornalística – da redação do texto à diagramação das páginas, leva o leitor a acreditar que há fidelidade na construção do relato e que a notícia é desprovida de interesses e de interpretações sem apuração. 

 
Golpe midiático-jurídico

O Página|12, jornal progressista e especialmente dedicado à causa dos direitos humanos, fez uma cobertura propagandística em defesa do ex-presidente. Acusando o golpe midiático-jurídico na capa e com a opinião de analistas políticos e articulistas, entre eles Dilma Rousseff e Eric Nepomuceno, o jornal dá nome aos golpistas e não deixa margem para ambiguidade. Em tempos de jornalismo de campanha - que no Brasil assume caráter vexatório, o Página|12 é um jornal necessário nessa contraofensiva mediática. Na edição desta sexta-feira, 14, por exemplo, enquanto o La Nación estampa na tapa que a expulsão dos trabalhadores demitidos em massa pelo fechamento da multinacional PepsiCo Argentina “deixou 15 policiais feridos”, o Pagina|12 mostra a repressão aos trabalhadores e seus possíveis desdobramentos no sindicalismo argentino. É a outra versão do fato e, ainda que também cristalizado por ideologia, expressa os interesses da classe trabalhadora e daqueles que não têm voz na ofensiva burguesa. 

Neste embate ideológico em que a "grande" imprensa fragmenta o debate, dispensa provas e furta-se à análise crítica, é de lamentar que não se tenha no Brasil um jornal como Página|12.



terça-feira, 4 de julho de 2017

portenidades

Da última semana pra cá tenho sustentado uma hipótese que não é teórica mas tem base empírica. Quando está ruim só piora e ficar em casa não resolve. Na sexta à noite fiquei presa por quase duas horas em casa, enclausurada. A porta emperrou, o vizinho tentou ajudar e a chave quebrou na fechadura. Numa tentativa frustrada de fuga fiquei presa no telhado do vizinho. O ínterim é quase uma novela feliz com final oneroso. Para abrir a porta, o equivalente a 640 reais (!). Com nota fiscal, R$ 820. O serviço imobiliário também renderia uma crônica. No dia seguinte à porta emperrada, acordei com meu quarto inundado. Era um vazamento no banheiro, um problema simples que a imobiliária não se encarrega e atribui a responsabilidade ao inquilino. Em suma, não tem contrato de locação que te salve. Fazer cópia de chave também rende outro conto e um vai e volta do chaveiro pra casa. São duas, três e, segundo uma fonte confiável, pode levar até cinco tentativas para que o chaveiro consiga acertar a cópia. Aí, satisfeita por não causar nenhum estrago nas últimas 48 horas, acabo de provocar um curto circuito em uma livraria graças ao meu adaptador de tomada. Consegui suspender o wifi, a energia elétrica e a máquina de café. E eu pensava que tinha sorte.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

sobre a solidão

Esqueçam o que disse sobre escrever uma tese em um bar. Estudar é também solidão e não se alimenta com ruído nem com um vaso de vinho. Cheguei há pouco e ainda estou me reconhecendo nesse espaço. Voltei às livrarias, bares e parques e ainda não fui aos museus, mas reencontrei amigos e criei novos laços. Comprei passagens para conhecer Mendoza e as Cordilheiras dos Andes, um desejo antigo. Mudei meu número e já não atendo no Brasil. Não tenho pressa para voltar.

Ainda sofro com as noites insones e passo parte das manhãs dormindo. Leio o primeiro tomo dos diários de Emilio Renzi. Em alguma medida, ainda que sem precisão, tento revisitar os lugares por onde o alter ego de Ricardo Piglia passou. Mas isso eu só soube mais tarde, quando desci uma estação antes para tomar um cortado em um restaurante de Arenales e Riobamba.

Hoje escrevi três páginas da tese. A primeira na cozinha de casa enquanto Franco passava o café, a segunda em um bar celta que serve picadas no almoço e a última em um resto bar em Almagro. Já não persigo o melhor lugar para a escritura e nem a precisão do texto que por algum tempo me castrou.

De tudo, esses quase cinco dias em uma casa com íntimos desconhecidos me fizeram ver que me adapto bem às circunstâncias. Meus pensamentos já não me angustiam como antes, a solidão não me paralisa e me sinto mais presente aqui, vivendo o agora.   

no mercado chino a regra é clara

Os mercados chinos estão por toda parte em Buenos Aires. São pelo menos dois por quarteirão. Não sei quando chegaram e nem seu faturamento, mas minha teoria é que também contribuíram pra frear o oligopólio do francês Carrefour na capital portenha. O Carrefour passou a instalar armazéns e a vender produtos básicos similares aos do mercado chinês. E tem muita gente que prefere o chino ao mercado francês.

Eles, os mercados chino, têm uma lei própria. A maioria não aceita cartões de crédito, mastercard nem pensar, e não reconhecem documentos de estrangeiros. Há pouco, tive a compra recusada pela atendente chinesa que mirou meu cartão e meu passaporte com desdém. Eles aceitam apenas o dinheiro, em espécie, como moeda de compra.

Os atendentes do mercado chino também não falam espanhol e entendem nada do que falamos. Tampouco fazem questão. Preservam suas raízes e sua cultura como se estivessem em seu país. A música ali é de flauta, de sino,  às vezes exaustiva e repetitiva para nosotros.


Eles ainda aplicam normas e decretos que passam ao largo daqueles praticados pelos grandes supermercados. Tem mercado chino que se percebe o roubo cobra dez vezes mais a mercadoria e não chama a polícia. No mercado chino a regra é clara.

terça-feira, 27 de junho de 2017

memória, verdade e justiça

Não se pode negar os avanços na política de direitos humanos de memória e justiça no período kirchnerista (2003 – 2015). Tanto Néstor como Cristina Kirchner tornaram nulos indultos e leis de anistia e estimularam os julgamentos de repressores. 

Entre 2007 e 2015, mais de 2,7 mil civis e militares acusados por crimes de lesa-humanidade foram parar no banco dos réus, sendo 386 condenados à prisão perpétua.  O ditador Jorge Videla, da primeira Junta Militar do golpe de 1976, foi julgado, condenado e morreu na prisão.  

Hoje, enquanto caminhava para reconhecer as redondezas de casa, passei em frente ao prédio do banco Santander Rio. O edifício está na avenida Callao, uma das mais movimentadas de Buenos Aires. Ali, onde funcionou o batalhão de inteligência do exército argentino no período ditatorial, está fixada uma placa para que todos leiam.

A sensação que fica é que mesmo passados 40 anos, em um prédio restaurado que hoje abriga um banco, não se pode caminhar impunemente e sem consciência.  

quinta-feira, 15 de junho de 2017

déjà-vu portenho


Tengo miedo del encuentro
con el pasado que vuelve a enfrentarse con mi vida.
Volver, de Gardel e Le Pera


Os cafés de Buenos Aires são perfeitos para terminar uma tese. A xícara fica vazia por horas e ninguém te obriga a sair. Basta entrar, pedir um cortado e uma medialuna e passar horas a fio lendo, matando tempo, ajustando o texto. No almoço, uma taça de tinto para acompanhar. É também por isso que volto, para terminar a tese.

Não sei como vou encontrar Buenos Aires. Quiçá desalmada, macrista, fria. Buenos Aires foi, para mim, uma partida, uma mescla de milongas e tangos e um duro recomeço. Perdi um amor, não sei se lá ou se aqui, mas foi um sabático de ganhos e perdas memoráveis. É também por isso que volto, para encontrar outra melodia em clave de fá.

Espero não me perder ainda mais. Não me perder nas livrarias, nos passeios vacilantes e nem ao largo de nenhum detalhe. Não quero me deixar levar pela umidade portenha e nem passar horas fitando o nada. Não sei como vou sentir Buenos Aires. É também para isso que volto, para me reconhecer.

Nunca morei sozinha na casa de não sei quem. Um quarto com vista para um pátio desenhado em mosaicos em uma casa com pé direito alto em Almagro. Volto também por isso, para traçar meu rumo, com meus próprios pés e sem amarras ou garantias.

Eu sei, às vezes Buenos Aires é ensurdecedora. As panelas gritam, os protestos param gentes, serviços e avenidas. Espero que eu não pare. É também por isso que volto, para não me aquietar e nem deixar de me mover.

Viajo com o desejo de preencher as páginas que deixei para trás. Espero voltar.