sábado, 15 de julho de 2017

Lula à moda argentina

“O povo não ficará sem Lula”, “condenação aos golpistas e liberdade para o Brasil”, “Lula expressa a esperança para o Brasil”, foram algumas das palavras de ordem difundidas por movimentos sociais e partidos políticos na Argentina após a condenação de Lula a nove anos e seis meses de prisão. No dia seguinte à sentença de Moro, Lula estampava a capa dos principais jornais argentinos e era pauta no metrô, no café da esquina e até no mercado chino. Enquanto alguns comparavam o ex-presidente com a “também injustiçada e vítima de perseguição política” Cristina Kirchner, outros reclamavam por “um Moro argentino” e por “uma justiça que não seja impune”.

Na quinta-feira, 13, na capa dos jornais Clarín, La Nación e Ámbito Financiero, Lula figurava como o político de maior expressão no Brasil que é condenado por corrupção e está ameaçado de voltar ao poder em 2018. Em um primeiro vistazo e para um leitor comum, há relativo equilíbrio na construção dos relatos, apesar das convicções políticas e ideológicas que esses jornais representam.

Em três páginas de reportagem, o conservador La Nación foi o que tratou de aprofundar os recentes fatos políticos, apresentando uma linha do tempo com os prazos judiciais e eleitorais, a apuração de um e outro dado da sentença judicial, uma breve avaliação do impacto da condenação de Lula no Kirchnerismo e contou com a já conhecida opinião de Ricardo Noblat e uma análise do correspondente do La Nación no Brasil, Alberto Armendáriz. Este, a partir de relatos de professores da UNB e da USP - ambos com citações precisas e até condizentes à realidade brasileira, construiu uma narrativa para aquilo que chama de “crise sistemática”, fez um resumo do envolvimento dos principais partidos e líderes políticos na corrupção e colocou Marina Silva e Ciro Gomes como aqueles que “talvez tenham margem para ganhar as eleições se Lula ficar inelegível”. Em um ato no mínimo herege, o correspondente argentino termina sua análise com uma citação do marxista Gramsci. Nos jornalões do Brasil, penso eu, a ousadia dos analistas políticos é buscar respaldo e erudição em uma cita de Olavo de Carvalho, a expressão do conservadorismo brasileiro.

Já o diário Ámbito Financiero, especializado em economia e dirigido ao setor empresarial, referiu-se a Moro como o “juiz anticorrupção”, dirigiu a análise à classe empresarial, "que parece preocupada apenas com a aprovação das reformas”, e questionou a legitimidade de Temer e dos deputados para seguir com as contrarreformas. Com material produzido pelas agências EFE e AFP, a edição trouxe ainda uma biografia de Lula e de Moro e não deixou escapar o viés político do julgamento e a estrela política em que se transformou o juiz de Curitiba.

Enquanto isso, no editorial do Clarín, jornal do maior conglomerado de mídia da Argentina, o editor reforça que além das fronteiras geográficas, também separam os dois países o limite que o Brasil coloca para a corrupção. Tal como fazia à época em que Dilma e Cristina eram as presidentas, o Clarín aproveita os ajustes de Temer e agora as sentenças da justiça brasileira para mostrar o quanto eles, os argentinos, caminham a passos lentos em algumas medidas.

Para os que não acompanham de perto a crise brasileira e a condução da operação Lava Jato e das sentenças proferidas por Moro, o La Nación pode parecer convidativo. Isso porque a técnica jornalística – da redação do texto à diagramação das páginas, leva o leitor a acreditar que há fidelidade na construção do relato e que a notícia é desprovida de interesses e de interpretações sem apuração. 

 
Golpe midiático-jurídico

O Página|12, jornal progressista e especialmente dedicado à causa dos direitos humanos, fez uma cobertura propagandística em defesa do ex-presidente. Acusando o golpe midiático-jurídico na capa e com a opinião de analistas políticos e articulistas, entre eles Dilma Rousseff e Eric Nepomuceno, o jornal dá nome aos golpistas e não deixa margem para ambiguidade. Em tempos de jornalismo de campanha - que no Brasil assume caráter vexatório, o Página|12 é um jornal necessário nessa contraofensiva mediática. Na edição desta sexta-feira, 14, por exemplo, enquanto o La Nación estampa na tapa que a expulsão dos trabalhadores demitidos em massa pelo fechamento da multinacional PepsiCo Argentina “deixou 15 policiais feridos”, o Pagina|12 mostra a repressão aos trabalhadores e seus possíveis desdobramentos no sindicalismo argentino. É a outra versão do fato e, ainda que também cristalizado por ideologia, expressa os interesses da classe trabalhadora e daqueles que não têm voz na ofensiva burguesa. 

Neste embate ideológico em que a "grande" imprensa fragmenta o debate, dispensa provas e furta-se à análise crítica, é de lamentar que não se tenha no Brasil um jornal como Página|12.



terça-feira, 4 de julho de 2017

portenidades

Da última semana pra cá tenho sustentado uma hipótese que não é teórica mas tem base empírica. Quando está ruim só piora e ficar em casa não resolve. Na sexta à noite fiquei presa por quase duas horas em casa, enclausurada. A porta emperrou, o vizinho tentou ajudar e a chave quebrou na fechadura. Numa tentativa frustrada de fuga fiquei presa no telhado do vizinho. O ínterim é quase uma novela feliz com final oneroso. Para abrir a porta, o equivalente a 640 reais (!). Com nota fiscal, R$ 820. O serviço imobiliário também renderia uma crônica. No dia seguinte à porta emperrada, acordei com meu quarto inundado. Era um vazamento no banheiro, um problema simples que a imobiliária não se encarrega e atribui a responsabilidade ao inquilino. Em suma, não tem contrato de locação que te salve. Fazer cópia de chave também rende outro conto e um vai e volta do chaveiro pra casa. São duas, três e, segundo uma fonte confiável, pode levar até cinco tentativas para que o chaveiro consiga acertar a cópia. Aí, satisfeita por não causar nenhum estrago nas últimas 48 horas, acabo de provocar um curto circuito em uma livraria graças ao meu adaptador de tomada. Consegui suspender o wifi, a energia elétrica e a máquina de café. E eu pensava que tinha sorte.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

sobre a solidão

Esqueçam o que disse sobre escrever uma tese em um bar. Estudar é também solidão e não se alimenta com ruído nem com um vaso de vinho. Cheguei há pouco e ainda estou me reconhecendo nesse espaço. Voltei às livrarias, bares e parques e ainda não fui aos museus, mas reencontrei amigos e criei novos laços. Comprei passagens para conhecer Mendoza e as Cordilheiras dos Andes, um desejo antigo. Mudei meu número e já não atendo no Brasil. Não tenho pressa para voltar.

Ainda sofro com as noites insones e passo parte das manhãs dormindo. Leio o primeiro tomo dos diários de Emilio Renzi. Em alguma medida, ainda que sem precisão, tento revisitar os lugares por onde o alter ego de Ricardo Piglia passou. Mas isso eu só soube mais tarde, quando desci uma estação antes para tomar um cortado em um restaurante de Arenales e Riobamba.

Hoje escrevi três páginas da tese. A primeira na cozinha de casa enquanto Franco passava o café, a segunda em um bar celta que serve picadas no almoço e a última em um resto bar em Almagro. Já não persigo o melhor lugar para a escritura e nem a precisão do texto que por algum tempo me castrou.

De tudo, esses quase cinco dias em uma casa com íntimos desconhecidos me fizeram ver que me adapto bem às circunstâncias. Meus pensamentos já não me angustiam como antes, a solidão não me paralisa e me sinto mais presente aqui, vivendo o agora.   

no mercado chino a regra é clara

Os mercados chinos estão por toda parte em Buenos Aires. São pelo menos dois por quarteirão. Não sei quando chegaram e nem seu faturamento, mas minha teoria é que também contribuíram pra frear o oligopólio do francês Carrefour na capital portenha. O Carrefour passou a instalar armazéns e a vender produtos básicos similares aos do mercado chinês. E tem muita gente que prefere o chino ao mercado francês.

Eles, os mercados chino, têm uma lei própria. A maioria não aceita cartões de crédito, mastercard nem pensar, e não reconhecem documentos de estrangeiros. Há pouco, tive a compra recusada pela atendente chinesa que mirou meu cartão e meu passaporte com desdém. Eles aceitam apenas o dinheiro, em espécie, como moeda de compra.

Os atendentes do mercado chino também não falam espanhol e entendem nada do que falamos. Tampouco fazem questão. Preservam suas raízes e sua cultura como se estivessem em seu país. A música ali é de flauta, de sino,  às vezes exaustiva e repetitiva para nosotros.


Eles ainda aplicam normas e decretos que passam ao largo daqueles praticados pelos grandes supermercados. Tem mercado chino que se percebe o roubo cobra dez vezes mais a mercadoria e não chama a polícia. No mercado chino a regra é clara.

terça-feira, 27 de junho de 2017

memória, verdade e justiça

Não se pode negar os avanços na política de direitos humanos de memória e justiça no período kirchnerista (2003 – 2015). Tanto Néstor como Cristina Kirchner tornaram nulos indultos e leis de anistia e estimularam os julgamentos de repressores. 

Entre 2007 e 2015, mais de 2,7 mil civis e militares acusados por crimes de lesa-humanidade foram parar no banco dos réus, sendo 386 condenados à prisão perpétua.  O ditador Jorge Videla, da primeira Junta Militar do golpe de 1976, foi julgado, condenado e morreu na prisão.  

Hoje, enquanto caminhava para reconhecer as redondezas de casa, passei em frente ao prédio do banco Santander Rio. O edifício está na avenida Callao, uma das mais movimentadas de Buenos Aires. Ali, onde funcionou o batalhão de inteligência do exército argentino no período ditatorial, está fixada uma placa para que todos leiam.

A sensação que fica é que mesmo passados 40 anos, em um prédio restaurado que hoje abriga um banco, não se pode caminhar impunemente e sem consciência.  

quinta-feira, 15 de junho de 2017

déjà-vu portenho


Tengo miedo del encuentro
con el pasado que vuelve a enfrentarse con mi vida.
Volver, de Gardel e Le Pera


Os cafés de Buenos Aires são perfeitos para terminar uma tese. A xícara fica vazia por horas e ninguém te obriga a sair. Basta entrar, pedir um cortado e uma medialuna e passar horas a fio lendo, matando tempo, ajustando o texto. No almoço, uma taça de tinto para acompanhar. É também por isso que volto, para terminar a tese.

Não sei como vou encontrar Buenos Aires. Quiçá desalmada, macrista, fria. Buenos Aires foi, para mim, uma partida, uma mescla de milongas e tangos e um duro recomeço. Perdi um amor, não sei se lá ou se aqui, mas foi um sabático de ganhos e perdas memoráveis. É também por isso que volto, para encontrar outra melodia em clave de fá.

Espero não me perder ainda mais. Não me perder nas livrarias, nos passeios vacilantes e nem ao largo de nenhum detalhe. Não quero me deixar levar pela umidade portenha e nem passar horas fitando o nada. Não sei como vou sentir Buenos Aires. É também para isso que volto, para me reconhecer.

Nunca morei sozinha na casa de não sei quem. Um quarto com vista para um pátio desenhado em mosaicos em uma casa com pé direito alto em Almagro. Volto também por isso, para traçar meu rumo, com meus próprios pés e sem amarras ou garantias.

Eu sei, às vezes Buenos Aires é ensurdecedora. As panelas gritam, os protestos param gentes, serviços e avenidas. Espero que eu não pare. É também por isso que volto, para não me aquietar e nem deixar de me mover.

Viajo com o desejo de preencher as páginas que deixei para trás. Espero voltar. 

quarta-feira, 14 de junho de 2017

três estrofes de incerteza

O Ribeirão foi como uma trégua. Era sexta-feira treze de um veranico de maio e para lá carreguei meus livros, alguns desencantos e meia dúzia de incertezas. Em um ano, algumas das incertezas se diluíram, enquanto outras resistiram à mudança. 

No Ribeirão desmaiei três vezes, aprendi sobre sopas e caldos e afoguei minha primeira horta. Fiz yoga, sustentei vínculos rasos e acho que pouco me libertei daquilo que me levou até lá.

Um ano depois, em uma mudança pra lá de tumultuada, as velhas dúvidas voltavam todas a galope no caminhão. Reza a cartilha da cura de Ana Cristina Cesar que é preciso voltar e olhar de novo aqueles dois quartos vazios. Prefiro a casa cheia, quadros na parede, flores nos vasos, livros ordenados na estante. Não me interessa, para nada, reviver aqueles quartos vazios. Hoje, a desordem urbana me interessa mais.