quarta-feira, 6 de junho de 2018

A desonra do professor


Na cozinha, ele abre uma garrafa de Meerlust e serve com bolachas e queijo. Na sala, ela olha a estante de livros, a cabeça de lado, lendo os títulos. Na vitrola, o quinteto de clarineta de Mozart. Um ritual de vinho e música. “Nada de errado com os rituais”, observa o narrador, “eles foram inventados para facilitar certas passagens difíceis. Mas a menina que trouxe para casa não é só trinta anos mais nova que ele: é aluna, sua aluna, está sob sua tutela. Aconteça o que acontecer entre eles agora, vão se encontrar de novo como professor e aluna”.
Desonra, do sul-africano J. M. Coetzee, é perturbador ao tratar de uma pauta que atravessa o cotidiano das mulheres. A obra trata de David Lurie, um professor universitário de 52 anos sem escrúpulos nem pudor no tratamento com suas alunas de literatura. Assim li Desonra, no limite entre aquilo que é consentido e aquilo que é violado. Recorri a Coetzee já há alguns meses, quando um caso similar envolvendo um professor da Udesc veio à tona.
A denúncia de um coletivo de alunas envolvendo um professor da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) parece ter saído daquelas páginas com um aditivo de desfaçatez que só pode ser traduzido à luz da realidade. No caso real, que em fevereiro saiu dos corredores da universidade e foi parar na delegacia, o professor foi acusado de abuso sexual e psicológico por um coletivo de dez mulheres, sendo um caso de estupro e outros nove de assédio sexual. 
A narrativa do acusado - seja na ficção ou na realidade -, é sempre a mesma. Houve consentimento no ato sexual, logo não há estupro. Na obra de Coetzee, a aluna não resiste. Tudo o que faz, conta o narrador, é desviar: desvia os lábios, desvia os olhos. Ela fica surpresa demais para resistir ao intruso que impõe sua presença. “Quando ele a pega nos braços, ela fica mole como uma marionete”. Na denúncia do professor da Udesc, a aluna não consente. Uma jovem que bebeu demais e aceitou o convite do professor para dormir em sua casa. Afinal, ele a conhecia desde a infância, era seu professor e uma de suas principais referências acadêmicas.
As denúncias de abuso e assédio sexual, registradas em março logo após a denúncia de estupro, tiveram seu primeiro desfecho nesta terça-feira, 5 de junho. No despacho do delegado Paulo Henrique de Deus, da Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso, o professor da Udesc foi indiciado por perturbação da tranquilidade, crime que prevê pena de prisão simples, de 15 dias a dois meses, e pagamento de multa. O processo segue agora para análise do Ministério Público de Santa Catarina e caberá a decisão do promotor aceitar a denúncia, pedir novas diligências ou alterar o indiciamento. Já a acusação de estupro segue tramitando em Palhoça.
Às vezes a literatura não dá conta de traduzir o cotidiano. Na obra de Coetzee, o leitor acompanha a decadência de David Lurie. Acusado de assédio e afastado do emprego na Universidade da Cidade do Cabo, o professor se vê repentinamente obrigado a defender a honra de Lucy, sua única filha que vive numa fazenda isolada no interior do país. Lucy é violada e estuprada em casa por três homens e o professor então se dedica a convencer a filha a denunciar o crime, ao que ela nega. Lucy engravida do violador e o estupro da filha parece o único elemento da trama capaz de tocar o professor, que quer vingança e deseja a morte do violador. Ainda assim, o protagonista se mostra incapaz de refletir sobre o seu assédio e as relações de poder. Afinal, ele é um professor de 52 anos, reconhecido pesquisador de literatura, rodeado de alunos pouco interessados e sensível aos prazeres do sexo oposto. Lurie é um homem de família.


quinta-feira, 15 de março de 2018

Quantas marielles terão de morrer?


O assassinato da vereadora do PSOL e ativista dos direitos humanos no Rio de Janeiro, Marielle Franco, e do motorista Anderson Pedro Gomes, não pode ser mais um nas estatísticas. Mulher negra da Favela da Maré, uma das maiores favelas do mundo, Marielle foi a quinta vereadora mais votada no Rio em 2016 e foi assassinada a tiros no Estado sob intervenção federal militar. “Precisamos gritar para que todos saibam o que está acontecendo em Acari nesse momento”, gritou Marielle no domingo, 11, ao denunciar os excessos do batalhão da PM na Favela de Acari. “O 41° Batalhão da Polícia Militar do Rio de Janeiro está aterrorizando e violentando moradores de Acari. Nessa semana dois jovens foram mortos e jogados em um valão. Hoje a polícia andou pelas ruas ameaçando os moradores. Acontece desde sempre e com a intervenção ficou ainda pior”, escreveu.

Eleita com 46 mil votos já em sua primeira disputa eleitoral, a voz potente e firme de Marielle sempre foi entoada para falar da vulnerabilidade social e econômica da mulher negra em nossa sociedade e em defesa do povo negro e periférico. Há duas semanas, a vereadora foi nomeada relatora da comissão que investiga a atuação das tropas na intervenção federal militar no Rio de Janeiro. Na semana passada, Marielle denunciou a violência policial em Acari. E ontem, 14, quando voltava de uma roda de conversa com dezenas de mulheres negras, seu carro foi emparelhado em uma região central do Rio do Janeiro e recebeu pelo menos nove disparos. Covardemente a silenciaram. 

Marielle não foi morta apenas por ser mulher, negra, feminista e “cria da Maré”. O assassinato da vereadora engrossa as estatísticas de ativistas, militantes e lideranças de movimentos sociais assassinados desde o golpe de 2016 com a destituição da presidenta eleita Dilma Rousseff. Em 2016, segundo o Comitê Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos, 66 ativistas foram mortos no Brasil, o equivalente a um defensor de direitos humanos assassinado a cada 5 dias. Neste primeiro trimestre de 2018, outros 7 líderes de movimentos sociais foram mortos. E esses assassinatos são costumeiramente ocultados pelo governo brasileiro. É o extermínio do Estado de Exceção que silencia as vozes dos que lutam. 
  
Quantas marielles terão de morrer? Gritemos.


quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Quem controla o controle remoto?

“A melhor forma de regulação da mídia é o controle remoto. Quer mudar de canal? Muda de canal. Não precisa o governo regular”, disse o presidenciável Ciro Gomes em entrevista na semana passada. Ciro, aliás, repetiu a tese defendida por Dilma Rousseff e que anos antes foi levada a cabo pelo ex-presidente Lula. Nos oito anos em que Lula governou o país, as políticas públicas de comunicação continuaram sendo negociadas e definidas em um ambiente restrito onde tinham voz os grupos empresariais. A maioria das propostas discutidas e apresentadas por organizações da sociedade civil e por entidades da mídia independente foram abandonadas e jamais implementadas no governo petista.

Em um país com um sistema de mídia concentrado e nas mãos de grupos que somente defendem seus interesses econômicos, políticos e religiosos, a afirmativa de Ciro Gomes beira a indecência e insensatez. O controle remoto como meio de regulação é próprio do discurso daqueles que negam, por oportunismo ou ignorância, a dominação e a ideologia a que estamos submetidos.
 
O venezuelano Ludovico Silva talvez tenha sido um dos intelectuais latino-americanos que mais avançou no debate sobre a ideologia. Ludo, que continua desconhecido no Brasil, fez uma releitura do conceito frankfurtiano de indústria cultural para a elaboração de sua tese da mais-valia ideológica. Nela, o intelectual venezuelano mostra como os meios de comunicação se converteram no veículo material que faltava ao capitalismo para criar a indústria ideológica, cujo alicerce é a alienação e a mais-valia. Nessa indústria, descreve Ludo, não apenas se ganha dinheiro e se acumula capital, como em qualquer outra indústria. “Se produz, além disso, um ingrediente específico: a mais-valia ideológica”.

Na década de 70, quando o intelectual venezuelano escreveu A mais-valia ideológica, os Estados Unidos ocupavam parte expressiva da grade de programação no nosso continente e a América Latina contava com 222 canais de tevê, sendo que 167 estavam nas mãos de empresas privadas e apenas 55 correspondiam ao setor público. Atualmente, ainda que os percentuais de transmissão de programas estadunidenses sejam para alguns países inferiores aos levantados nos anos 1970, os grupos empresariais de comunicação adotam a mesma estética dos programas televisivos que antes importavam, agora produzindo seus conteúdos e programas em uma releitura da indústria hollywoodiana. E o sistema de mídia na América Latina, apesar dos marcos regulatórios aprovados em alguns países, segue concentrado e submisso ao capital privado.

À época do estudo de Ludovico, o Brasil se expandia com a telenovela. Hoje, passados quase 50 anos, a influência da teledramaturgia no cotidiano da sociedade não é menor. Só a Rede Globo transmite até cinco novelas por dia, sendo três delas inéditas, e seis episódios de cada novela por semana. Globalmente, 104 países compram novelas produzidas pela TV Globo. A novela Avenida Brasil, por exemplo, foi exportada a outros 130 países, traduzida em 19 idiomas e fez a capital Argentina parar em 2014 para assistir o fim da trama de Carmina y Jorgito. Aliás, isso rendeu a Rede Globo o troféu Destaque na Exportação de Serviços, reconhecimento do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior do governo Dilma pelo licenciamento de 63 títulos para 72 países em 2013.
No Brasil, não por acaso, as telenovelas são transmitidas em horário nobre e recepcionam o operário depois da jornada de trabalho. É quando a teledramaturgia alcança a efetividade de criar homens receptores-passivos da ideologia, como bem descreveu Ludovico. Basta assistir a um capítulo para perceber a alienação ideológica presente na trama. Na novela, tem trabalhador que se revolta contra o patrão e se rebela contra o sistema. Mas nada dá muito certo para esse empregado e novamente ele é enquadrado e seduzido pela ordem. É um respiro, um fôlego, para novamente voltar à alienação e ao controle. E a teledramaturgia também representa o retrato fiel do empregado que trabalha duramente até à morte, que se submete bem a qualquer prazo e meta e ambiciona ser o patrão, já que não há subversão e radicalidade possível para um operário dentro da ordem capitalista. É assim que a indústria ideológica atua, tentando nos incutir uma interpretação falsa da realidade e alienando a nossa sobrevivência à ideologia capitalista.

O jornalismo, com seus factoides políticos e econômicos, opera dentro dessa mesma lógica, de que não há existência humana possível se esta não estiver atrelada à dominação capitalista. Por isso, quando um sujeito diz que a melhor forma de regulação da mídia é o controle remoto, reflito sobre quais forças efetivamente controlam esse sujeito. 

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Mulheres encarceradas

São muitos os desastres e amarguras na vida de Beatriz. Encarcerada na preventiva, Beatriz é mãe de dois e engrossa o número de mulheres brasileiras que foram presas antes do julgamento. Em 2016, segundo dados do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), a população carcerária feminina era de 44,7 mil mulheres e, dessas, 80% são mães e responsáveis principais, quando não únicas, pelos filhos. Ainda segundo o relatório do órgão do Ministério da Justiça, nos últimos 16 anos houve um crescimento de 698% da população carcerária feminina no país e 43% das mulheres presas não tiveram seus casos julgados definitivamente. Do total de mulheres encarceradas no Brasil, 4,6 mil presas são mães de crianças de até 12 anos, gestantes e lactantes. Beatriz é uma entre tantas. 

Conheci Beatriz quando visitei o Presídio Feminino de Florianópolis, em abril de 2017. Presa do tráfico, à época ela completava um ano e oito meses de prisão preventiva. Beatriz foi presa de Ricardo, seu companheiro por sete anos e com quem tem dois filhos, e mais tarde ficou presa à infração de Ricardo, traficante do Morro do Rosario, em Blumenau. Beatriz já estava encarcerada à trama de Ricardo antes mesmo de cair ali.

- Eu caí num dia. Ele caiu no outro.

O mundo de Beatriz caiu por conta de uma balança de precisão. Os dois filhos, Maria Victoria e Ronaldo, desciam a rua em um carrinho de rolimã quando a polícia subiu com a viatura. Estavam atrás de Ricardo, mas Beatriz, pobre e mulher, estava dando sopa e a levaram. Ricardo foi preso no dia seguinte. E as crianças passaram a morar com a avó materna.

Quando conversei com Beatriz, fazia 13 meses que ela não via seus filhos. Maria Victoria faria quatro anos em maio e Ronaldo completaria seis em outubro. Não precisei contar a ela sobre o benefício concedido à Adriana Ancelmo, mulher do ex-governador do Rio Sérgio Cabral. Em março de 2017, a ex-primeira dama do Rio foi autorizada a cumprir prisão em casa para poder cuidar dos filhos de 11 e 14 anos. Beatriz assistiu a tudo na tevê e sabia bem porque ela continuava ali, na preventiva.

- Ela é rica, mulher de governador.

Beatriz não tem estudo. Ela cursou até o terceiro ano do primeiro grau e trabalhava de diarista até engravidar de Ronaldo. Mas não é preciso ser especialista para saber que a justiça é seletiva, tem classe social e que a lei é para poucos.

Ontem, dia 20, com a decisão favorável do Superior Tribunal Federal (STF) em conceder prisão domiciliar às mulheres presas que têm filhos de até 12 anos, lembrei de Beatriz. O pedido de habeas corpus coletivo foi movido pelo Coletivo de Advogados em Direitos Humanos (CADHu), em atenção ao artigo 318 do Código do Processo Penal que prevê, desde 2016, que a prisão preventiva pode ser substituída pela domiciliar se a acusada for gestante ou mãe de filho de até 12 anos incompletos. A partir da publicação do resultado do julgamento do STF, os Estados vão ter 60 dias para cumprir a decisão. Beatriz, presa com uma balança de precisão, talvez possa celebrar em casa o aniversário de cinco anos da filha caçula.



Texto publicado na coluna A Outra Reflexão, do Portal Desacato

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Violência contra a mulher: De que lado você samba?

Ainda não foi divulgado o número de mulheres violentadas neste carnaval. Apesar das campanhas de conscientização e contra assédio ganharem as ruas, o Brasil assiste de camarote a violência contra mulheres. Em 2017, segundo dados da Secretaria de Políticas para as Mulheres do Governo Federal, o número de denúncias de crimes contra mulheres subiu 90% nos quatro dias de folia. Naquele mesmo ano, a cada quatro minutos, uma mulher foi agredida no Rio de Janeiro. Em sua maioria, as denúncias envolvem casos de violência psicológica, violência sexual, violência moral, cárcere privado e de tráfico de pessoas.

Para alguns machos, aglomerações funcionam como uma espécie de licença para a selvageria e para o crime de assédio. Lembro da metade da década de 90 em Blumenau, quando a Oktoberfest em nada representava uma “festa para a família”, como depois trataram de comercializar, e mais parecia um encontro de selvagens que bebem cerveja e tentam encurralar suas presas em um corredor polonês. Éramos comumente hostilizadas e assediadas e, não poucas vezes, assistimos meninas ser agredidas e despidas à força quando negavam qualquer aproximação com aqueles sujeitos delinquentes. Eles eram os sujeitos da ação.

O corpo feminino é tratado como público, um objeto a ser desvendado e massacrado, e essa é uma prática atualizada cotidianamente e não depende apenas de um aglomerado de machos para sua permanência. A chamada grande mídia é um influente ator na manutenção dessa estrutura de poder e na sustentação do patriarcado. A exposição do corpo feminino como objeto e território do outro e o estigma da mulher no papel de sujeição ao homem e à família são práticas cotidianas de uma grande mídia que naturaliza a submissão de um sexo a outro e trata a mulher como submissa, mercadoria, hipersexualizada e, por vezes, vaidosa em nível tóxico.

Recentemente, a apresentadora global Fátima Bernardes, estampava assim a capa de uma revista: “Trigêmeos aprovam namorado de Fátima Bernardes”. Enquanto isso, no portal de notícias da Globo, William Bonner vai ao teatro com a namorada e se emociona na estreia da peça. E viria uma sequência de propagandas noticiosas com esse mesmo fim. A questão central, a meu juízo, é que os filhos de Bonner não precisam aprovar nem desaprovar a namorada do pai. Na manchete de Bonner, os trigêmeos de Fátima não são notícia. Ele é o sujeito da ação.

Essa mesma mídia empresarial que subestima a mulher e a sujeita ao homem, também a estigmatiza e hipersexualiza para a manutenção dessa estrutura sexista de poder. A Globeleza, criada pela Rede Globo, é um exemplo da personificação da hipersexualização da mulher negra ao longo da história. Por anos, a mulher negra foi objetificada e reduzida a um corpo que invadia os lares brasileiros a qualquer hora do dia.

Em um país que a cada 11 minutos uma mulher é violentada, uma estrutura de mídia hegemônica e elitista sem qualquer compromisso que não seus interesses econômicos e políticos deve também responder pela coautoria dos fatos e ser criminalizada.


O Estado, a mídia e a criminalização dos movimentos sociais

  Vanessa não pode sair de casa depois das dez da noite. Não pode fumar, consumir bebida alcoólica nem frequentar bares e baladas. Vanessa é aluna da última fase do curso de Relações Internacionais na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), está desempregada e, há 16 meses, desde outubro de 2016, permanece à disposição da justiça para prestar depoimento sempre que intimada. Vanessa não pode mudar de endereço sem autorização prévia da justiça, uma vez por mês tem que comparecer à delegacia para assinar uma lista e não pode se ausentar por mais de oito dias da comarca sem aviso prévio.

Vanessa não é portadora de nenhuma enfermidade ou anomalia. Ela é apenas mais uma vítima da justiça burguesa. As restrições à liberdade impostas à Vanessa se aplicam aos montes no Brasil e vêm a reboque das perseguições políticas comandadas pelo Estado policial que criminaliza aqueles que reivindicam e lutam por seus direitos. Acusada pela PM de infração do artigo 163 do Código Penal, Vanessa Canei foi presa em 10 de outubro de 2016, passou uma noite na cadeia e começou a pagar a pena em regime aberto já no dia seguinte à prisão, antes mesmo do julgamento. Naquela noite de segunda-feira, por volta das 22h30, em frente ao terminal de ônibus do Centro de Florianópolis, Vanessa Canei protestava junto a centenas de manifestantes contra a PEC 241, que congela os gastos públicos em saúde e educação por até 20 anos, e a medida provisória 746, outro retrocesso em relação aos direitos conquistados e assegurados aos jovens de escola pública. Vanessa e Larissa foram detidas por “desacato, resistência à prisão e dano ao patrimônio público” e Gabriel Rosa também foi preso em flagrante por “lesão corporal e resistência à prisão”.

O caso de Vanessa, Larissa e Gabriel é mais um dentre centenas que colocam aqueles que lutam por seus direitos no banco dos réus. Em junho de 2016, estudantes secundaristas foram torturados por policiais na desocupação da Secretaria da Fazenda (Sefaz) de Porto Alegre. O relatório do Comitê Estadual Contra a Tortura (CECT) aponta uma série de ações da Brigada Militar (BM) que caracterizam o crime de tortura. Segundo o documento, um estudante foi levantado pelo pescoço e outra agarrada pelos seios. Outro relato foi de um estudante forçado a abrir a boca para dentro jogarem spray de pimenta.

Outro caso símbolo da seletividade penal e da criminalização da pobreza e do racismo é a prisão de Rafael Braga. Até junho de 2013, Rafael Braga, jovem negro e pobre, trabalhava catando material para reciclagem nas ruas do Centro do Rio Janeiro. Em 20 de junho de 2013, quando no Rio de Janeiro acontecia a maior das manifestações contra o aumento das passagens de ônibus, Rafael Braga foi detido ao chegar em um casarão abandonado, onde por vezes dormia. Ele não participou da manifestação e carregava duas garrafas de plástico, uma de Pinho Sol e outra de desinfetante. Na delegacia, os policiais apresentaram as garrafas abertas e com panos. Ele foi acusado de portar material explosivo, que poderia funcionar como coquetel molotv. Em dezembro de 2013, Rafael Braga foi condenado a 5 anos e 10 meses de reclusão. Em outubro de 2014, houve uma progressão da pena para o regime semiaberto, quando poderia sair do presídio para trabalhar. Finalmente, em dezembro de 2015, Rafael Braga ganhou uma progressão ao regime aberto e passou a ser monitorado por uma tornozeleira eletrônica. Em janeiro de 2017, a caminho da padaria na favela onde morava, foi novamente preso em um flagrante forjado, de acordo com testemunhas, e acusado de associação e tráfico de drogas. Rafael Braga, jovem negro e pobre, foi condenado a 11 anos de prisão.

Esses processos de repressão tratam não apenas da detenção, mas muitas vezes reproduzem práticas comuns do regime militar, com tortura e tratamentos degradantes e desumanos. São métodos punitivos que, em uma sociedade sem reflexão sobre si, acabam sendo naturalizados por uma construção da verdade jurídica-policial e midiática. A chamada grande mídia é mais um sustentáculo dessa violência institucional. A cobertura jornalística da mídia burguesa em greves, paralisações e protestos mostra claramente como a imprensa constrói a opinião e apresenta uma percepção seletiva dos fatos. Em um primeiro momento da cobertura das Jornadas de Junho de 2013, quando a pauta dos protestos era o aumento das passagens de transporte público, o Jornal Nacional da Rede Globo dava ênfase à “degradação, ao tumulto e ao congestionamento” provocados pelas manifestações. As vidraças quebradas, a aparente desordem e a tropa de choque na defensiva foram as imagens criteriosamente selecionadas para a cobertura dessa primeira fase dos protestos, enquanto as fontes da notícia, escolhidas em maioria entre trabalhadores do comércio, ratificavam o pânico causado por conta dos manifestantes.   

Nesta terça-feira, 6, no Fórum de Florianópolis, o processo de Vanessa, Larissa e Gabriel teve mais um passo para seu desfecho. Às 16 horas, em audiência fechada, as testemunhas de defesa e acusação foram ouvidas. Uma das testemunhas do processo, o jornalista Rubens Lopes, cobria o ato de outubro de 2016 para a Rádio Campeche quando Vanessa Canei foi detida. Segundo as imagens apresentadas por Lopes e anexadas ao processo, em nenhum momento Vanessa resiste à prisão ou desacata os policiais. Segundo o jornalista, a manifestação seguia pacífica até o momento em que o choque começa a agredir os manifestantes com bombas, balas de borracha e spray de pimenta. De acordo com ele, que há anos cobre manifestações e atos na ilha de Santa Catarina, foi a cobertura em que notou maior repressão policial.

Vanessa ainda não teve voz na ação. A justiça e nem a imprensa comercial de Florianópolis trataram de ouvir seu relato. O desfecho da ação criminal movida pelo Estado contra Vanessa, Larissa e Gabriel deverá acontecer em 11 de abril, quando está marcada uma nova audiência. Até lá, completando 18 meses de regime aberto antes mesmo de ser julgada, Vanessa permanece vítima do Estado e da justiça burguesa. 





sábado, 27 de janeiro de 2018

uma ateia no templo portenho de Edir Macedo

Ao entrar, o pastor é ovacionado pela plateia formada por longas saias e ternos risca de giz. De microfone em punho, anuncia:
 - Gloria a Deus, Aleluia!
À sua frente, alinham-se fileiras de fiéis em busca de um alento divino. Juntos, em pequenas variações de clave, eles se manifestam:
 - Aleluia, Gloria a Deus!

Assim tem início o culto evangélico na Igreja Universal do Reino de Deus no bairro Almagro, em Buenos Aires, onde ocupa quase uma quadra da Avenida Corrientes, uma espécie de avenida paulista dos portenhos. Mas essa também pode ser a reprodução fiel de qualquer uma das igrejas espalhadas nos países dos cinco continentes em que a Universal está instalada, como Rússia, Letônia, Moçambique, Grécia, Japão, Equador, México e Austrália.

Criada há 40 anos, a igreja comandada pelo bispo Edir Macedo está presente em mais de 17 países. Só na Argentina são 266 igrejas que, além de encontros diários, promovem atividades sociais, programas voltados à educação espiritual das crianças e auxílio emocional para problemas familiares. Em Buenos Aires, o templo de Edir Macedo também atua nas ruas, por meio do grupo de evangelização, e tem projetos específicos para as mulheres, como o Godllywood, que busca a “valorização da figura feminina na sociedade por meio das orientações de Deus para as mulheres”, o projeto ItelliMen, dedicado aos homens, e também o grupo Calebe, voltado à terceira idade. Em Almagro, a catedral pode abrigar até quatro mil pessoas.

Ao entrar na Universal portenha, não sem antes passar pelo crivo de um dos cinco seguranças que se comportam à la agentes secretos do bispo, fui recebida por uma mulher, uma espécie de hostess do templo de Edir Macedo. Ela me conduziu até o salão principal, onde centenas de fiéis aguardavam pelo pastor.

- Glória a Deus! Aleluia!

Apostando em um espanhol macarrônico, o pastor faz uma reflexão sobre a crise econômica, o desemprego e a pobreza. A solução, ele diz, não está lá fora, mas dentro da igreja, no evangelho.
 - Nada resolve lutarmos contra o Macri, reclamar da Cristina ou esperar que alguém lá fora nos tire dessa crise. A solução, meus irmãos, está aqui dentro. Devemos nos unir e eleger os nossos representantes.
- Aleluia, Gloria a Deus, rugia a plateia a cada ideologização do pastor.
Ontem, continuou o pastor, no nosso culto dedicado às causas dos empresários, eu voltei as minhas orações à prosperidade de seus negócios. Se tem algum empresário que não pode estar aqui ontem, venha aqui em frente por favor.

Em menos de um minuto, 17 ternos risca de giz e três longas saias se aproximaram do púlpito. Outra dezena de empresários ficou de pé e permaneceu onde estava, dada a dificuldade de locomoção.
- Como você se chama?
- Cristóbal.
- Qual é o seu negócio e qual o seu problema, irmão Cristóbal?
- Tenho uma fábrica de tintas em Villa Crespo. Fui assaltado três vezes no último mês. A falta de segurança vai me levar a fechar meu negócio.
Com a mão esquerda na testa de Cristóbal, o pastor prega algo inaudível. Ainda assim, o rebanho é novamente orientado a repetir as palavras de ordem:

- Gloria a Deus, Aleluia.

O pastor segue o périplo até chegar à mulher empresária. Amália Flores é nordestina de Aracaju e há dois anos vive em Buenos Aires. Ela é gerente de um pequeno salão de beleza no bairro Boedo. Amália está ali para agradecer e orar pelo Brasil que “enfrenta um momento muito ruim”. Ele pede então que Amália fique de joelhos e entrega o microfone a um de seus discípulos. Com as duas mãos sobre os cabelos pranchados de Amália, o pastor louva a Deus.

- Aleluia, irmãos!, e dirige-se novamente aos fiéis: Você que é empresário e quer melhorar seus negócios, a Universal está em 170 países. Você quer abrir o seu negócio nesses países?

- Glória a Deus senhor!

Em um país como a Argentina, onde metade da população parece acomodada em um divã, a evangelização assume para as classes populares quase um tratamento psicanalítico. Ajoelhados em um banco de madeira, eles creem que todos que lá estão, desde que respeitados os protocolos divinos, serão salvos. Ali, alguns males da vida moderna, como angústias existenciais e depressão, são atribuídos ao “satanás” e os pastores são os legítimos libertadores dessas moléstias.

Tal qual no Brasil, as promessas de aumento salarial, quitação de dívidas e sucesso financeiro assumem um caráter central na evangelização da Universal em Buenos Aires. É também ali, perante o pastor, que milhares de fiéis subordinam a espiritualidade às necessidades do capital e formam consenso contrário em relação a temas caros à sociedade, como o direito ao aborto seguro, o direito civil igualitário à população LGBT e mais uma dezena de ataques aos direitos e outros tantos retrocessos.

O fato é que mesmo uma ateia que clama a deus apenas na turbulência pode se sentir acolhida naquele espaço. Quando entrei no templo de Edir Macedo, motivada por um desejo quase divino, não sabia ao certo o que encontraria. Sobrevivi ao experimento e não me converteram.


>> Texto originalmente publicado no Portal Desacato. Pode ser acessado aqui
>> As fotos são de Leonardo Regis.