domingo, 3 de novembro de 2013

sobre leis e doce de leite

Viajo pra Buenos Aires praticamente duas vezes por mês, sempre no voo direto da GOL, e costumo trazer vinho e doce de leite na bagagem. Hoje, pela primeira vez, fiz conexão no aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre. Na imigração, passei a mala no detector e o funcionário da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) pediu que eu abrisse a bagagem. Retirou os quatro potes de doce de leite e colocou em uma bandeja para depois jogá-los no lixo. Grosseiramente e me tratando como uma infratora, disse que se trata de uma lei federal e, em resposta ao meu argumento que “sempre trago doce leite na bagagem”, disse que eu deveria saber.

Só se pode cumprir uma regra quando ela é pública e divulgada para conhecimento de todos. Nunca recebi ou li no aeroporto qualquer orientação da companhia aérea ou do governo federal. A única informação que recebo da GOL no check in é sobre o transporte de objetos cortantes na bagagem de mão. E por isso, antes de destilar minha raiva no governo, minha revolta vai para GOL. Exceto pela informação da comissária de bordo, já no pouso, as atendentes da GOL não prestam essa informação no despacho da bagagem.

É obrigação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento divulgar a regra nos aeroportos e deveria também fiscalizar as rodovias, já que por terra pode-se trazer até uma vaca da Argentina. Outra coisa é a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) que tem por obrigação fiscalizar e regulamentar os serviços das companhias aéreas. E por último, o bosta do funcionário da Anvisa que não tem o direito e nem autoridade para ser grosseiro.

Claro, além do escândalo na imigração, não fiz por menos com o doce de leite antes de ir para o lixo. Meti dois dedos, chupei e ofereci para o funcionário. Foi minha única transgressão.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

pela luta dos jornalistas catarinenses

Foto divulgação SJSC
O Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina (SJSC) alerta para tentativa da RBS, a maior afiliada da Rede Globo, de dividir a categoria e enfraquecer a campanha de negociação coletiva.

Se isso ocorrer só comprova a falta de consciência de classe dos jornalistas, fruto da deficiência do sindicalismo laboral, da debilidade política e de uma formação universitária que prima pela técnica.

A “Operação Reflexão”, como propõe o SJSC, é válida, mas modesta. Mais que somente refletir sobre a precarização do trabalho, precisamos de um plano de luta, que admita uma paralisação, matérias sem assinatura, mobilização e protesto, e vídeos e textos que esclareçam o que é uma negociação coletiva, já que muito jornalista, na falta de uma atuação mais firme do sindicato, compra o discurso do patrão.
Aqui, o link para a nota publicada pelo sindicato.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

a luta dos jornalistas argentinos

Jornalistas e trabalhadores da imprensa argentina lutam por 35% de aumento, 7 mil pesos de salário básico (aproximadamente R$ 2,6 mil), e reivindicam pela liberdade sindical e contra à precarização laboral. 

No Dia do Jornalista, 7 de junho, 1,5 mil trabalhadores ocuparam as redações do La Nación, Atlántida, Ambito Financeiro e cortaram parte da avenida 9 de Julio. Dias depois, trabalhadores do diário Clarín desligaram os computadores por uma hora, o que não acontecia há 40 anos. Jornalistas deixaram de assinar as edições e iniciaram paralizações diárias de três horas em jornais, revistas, agências nacionais e internacionais e sites de notícia.

Ontem, 20 de junho, os trabalhadores manifestaram em frente à sede do Infobae e seguiram para o prédio das revistas do La Nación e do Grupo Veintitrés. Na próxima quarta, dia 26, a paralização é de 24 horas em frente ao Clarín, que junto ao La Nación dirige a câmara patronal dos diários.

Aliás, foi na redação do Clarín, na comemoração do Dia do Jornalista, que 300 trabalhadores fizeram um protesto simbólico pela negociação coletiva. Um aplauso de dez minutos até que o editor responsável desistiu de discursar aquilo que repete todos os anos: “(...) este é o melhor lugar pra fazer jornalismo na Argentina”.

As reivindicações laborais são as mesmas dos sindicatos de jornalistas no Brasil. A pauta é a mesma. O que nos afasta é a luta.
 
vídeo da manifestação do dia 20 de junho.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

diga não à redução

A redução da maioridade penal me assusta. Reduzir de 18 para os 16 a idade em que uma pessoa deve responder criminalmente pelos seus atos é uma medida socialmente irresponsável. Uma pesquisa da Datafolha mostra que 93% dos moradores da capital paulista concordam com a diminuição da idade. A pauta já é discutida desde 1999 no Congresso Nacional e voltou à tona depois do assassinato de um universitário, mesmo sem ter reagido a um roubo de celular, em São Paulo. O suspeito do crime é um jovem que estava a três dias de fazer 18 anos.

Então, invertemos a posição. E se o estado brasileiro garantisse os direitos aos menores, conforme previsto na Constituição?  Se todo o menor fosse bem alimentado, com acesso à escola, à educação pública de qualidade e não estivesse nas ruas e submetido às desigualdades sociais e culturais, o discurso seria outro. Primeiro, o discurso hegemônico da grande mídia reforça os efeitos da violência, mas não as reais causas do problema. A imprensa torna o debate superficial e os políticos se escondem neste mesmo imediatismo.

Ao omitir os índices de desigualdade social do país, as falhas na educação familiar e escolar e os direitos negligenciados pelo estado, a mídia atribui a responsabilidade pelo crime como uma “escolha” do menor infrator. Uma pesquisa da Fundação Casa apresenta o perfil dos internos como adolescentes de baixa renda, com muitos irmãos e sem acesso à educação e com pais que têm dificuldades em sustentar a todos.
Não se trata de firmar posição que a desigualdade social leva à criminalidade, mas de considerar que a falta de estrutura familiar, de educação, a maior exposição à violência nas periferias e a falta de políticas públicas tornam esses jovens muito mais suscetíveis a cometer pequenos crimes.

Portanto, a redução da maioridade penal não resolve e nem ameniza o problema da violência. Reduzir a maioridade penal é uma medida socialmente irresponsável.

 

 

 

 

sábado, 13 de abril de 2013

una mirada al sur

Hay cosas en Buenos Aires que todavía no había descubierto en otras ciudades.  Hay un drama en la manera de mirar las cosas. Es como si el fin estuviese tan cerca y que nada pudiera hacerse, excepto dramatizar. Hay una forma un tanto trágica de mirar la vida. El tango tiene gusto de una pérdida, mientras nosotros sufrimos con el batuque de samba.

En Brasil, aunque no nos falten buenos cantantes, no se practica en las plazas. Es que no tenemos tantos espacios verdes y parques. Aquí, sin embargo, las personas hacen de las plazas un punto de encuentro, quitan las ropas y se encuestan para tomar sol – un costumbre europeo por así decir -, en Brasil las plazas con sus fuentes sirven para ocultar un paisaje de míseros árboles.

No es sencillo mirar el cielo porteño en la primavera. Las jacarandas y tabebuias están por todo, cubriendo las ventanas de los edificios más altos y cerrando las calles desde arriba. Sólo cuando el viento sudestada sacude los árboles deja que te mire la luna desde un punto.

Los cafés porteños, otra tradición argentina poco cultivada en el Brasil exportador de granos, están siempre llenos y con muchos brasileños del sur. En parte porque la imposibilidad financiera de viajar a Europa hace del verano porteño un destino perfecto. Otra porque, quizá, sea la condición más barata para el acceso al duty free, una vieja pasión de la nueva clase media brasileña. 
Una lástima para los brasileños es que no hace frio en la humidad de enero y tampoco se habla inglés o francés por acá. Es desmedido, incluso. Si se van al Estados Unidos intentan hablar en inglés, pero cuando vienen para acá hablan en portugués y esperan que comprendan e acepten de buen grado. Además, tienen el infeliz costumbre de tratar los argentinos como si estuviesen en un partido de futbol al final del mundial.  

Los argentinos tienen una conciencia nacional más allá del futbol. Hay una cuestión nacional que no se rompe. Se manifiestan, hacen cacerolazos, luchan por sus derechos y defienden la clase social que representan. Los brasileños, aunque desacreditados con el gobierno o inconformados con las decisiones del Supremo Tribunal Federal, callan. Las calles en Brasil sirven para pasar con los autos y también para asfaltar. Además, con tantas reducciones de impuesto para comprar un auto, no hay razones para pensar en recorrer en bicicleta como a los porteños les gusta.
Otro paradojo es la actuación del estado brasileño a los delitos de lesa humanidad. Aunque tenemos una presidenta que fue secuestrada y torturada en la dictadura, no tenemos el juicio político contra los torturadores y tampoco somos ejemplo en contra de aquellos que violaran los derechos humanos. Es un temario menor en Brasil.

Hace pocos días leí que los ruidos de Buenos Aires superan lo permitido por ley. Es decir que hay un rumor continuo de la gente que pasa, los bocinazos, los gritos, los motores en marcha y las frenadas de la esquina. Y yo que pensaba que las vías bloqueadas caminaban con menor agresión sonora. 

En Buenos Aires pasa todo, diferente de lo que algunos piensan. Aquí se va bien, realmente bien.  
  

 

 

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Al Jazeera TV


A partir de 1996, com a fundação da agência Al Jazeera TV, o jornalismo internacional - sobretudo o monopólio personificado pela CNN, BBC, NBC e Euronews -, sofreu uma perda na hegemonia da informação quanto aos conflitos do ocidente com o mundo árabe. Foi a Al Jazeera quem mostrou as vítimas civis dos bombardeios ocidentais e as consequências das agressões do exército israelense.
 

Na redação do canal trabalham jornalistas de várias tendências políticas e ideológicas (cristianos, muçulmanos, islamitas, etc), muitos dos quais formados na Europa pela BBC, e alvo de constantes represálias e resistências, especialmente dos EUA.
 

Recentemente, a rede anunciou a aquisição da Current TV, que tinha entre seus acionistas Al Gore, vice-presidente dos Estados Unidos na gestão Bill Clinton. Agora, a rede de TV do Qatar, antes transmitida apenas em Nova Iorque e Washington, passa a ser exibida para cerca de 50 milhões estadunidenses.

Vale a pena assitir a entrevista do Chomsky. 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Néstor Kirchner, a película

“Néstor Kirchner, a película”, biografia cinematográfica do presidente Kirchner (2003-2007), não é um bom relato. O filme, financiado pelo Instituto Nacional de Cinema e Artes Audiovisuais (Incaa) e com estreia em 120 salas do circuito comercial na Argentina, não aprofunda questões fundamentais do governo de Néstor Kirchner. A produção é uma obra militante e festiva, mas sem o devido aprofundamento político.

A diretora Paula de Luque abusa de fragmentos de gravações caseiras e de testemunhos de familiares, a exemplo do depoimento do filho Máximo Kirchner, que conta como seu pai desfrutava tombando seus soldadinhos de brinquedo durante sua infância. Ou, ainda, que gostava de fazer chifrinhos em quem estava ao seu lado na foto ou filmagem.

Apesar da reprodução de imagens de Kirchner com os presidentes Hugo Chávez (Venezuela), Lula (Brasil), Evo Morales (Bolívia) e Rafael Correa (Equador), a relação entre os países não é documentada por depoimentos de líderes latino-americanos. A viúva e presidente Cristina Kirchner, também restrita às imagens de arquivo, citada em testemunhos familiares e devidamente enaltecida pela aprovação da Ley de Medios, tampouco aparece no filme.

Fica de fora, por exemplo, uma anedota contada recentemente em Buenos Aires, no encerramento do Encontro de Economia Política, pelo vice-presidente da Bolívia, Álvaro García Linera, sobre a decisão de nacionalizar os recursos no país boliviano. Em um ato em Santa Cruz, em 2007, antes de iniciar a cerminônia, Néstor Kirchner perguntou a Evo Morales qual a principal luta no país. O presidente da Bolívia disse que as petrolíferas não querem investir pelos altos impostos. Néstor não respondeu de imediato, mas em seu discurso anunciou que a Argentina daria todo o dinheiro que a Bolívia necessitasse para a produção de petróleo e gás que as empresas se negavam a investir. Logo depois, contou García Linera, as empresas fizeram filas para investir em energia.

Outro aspecto central pouco explorado no documentário é a política de direitos humanos do governo Néstor Kirchner, caracterizada pelo fim das leis de Ponto Final e Obediência Devida, que impediam o julgamento político de torturadores e autores de delitos de lesa humanidade durante a última ditadura militar argentina (1976-1983). É retratado na película apenas o momento em que Néstor ordena ao comandante-chefe do exército que retire os quadros de todos os militares que governaram o país durante a ditadura. Entre eles dois integrantes da primeira Junta Militar da ditadura, o general Jorge Rafael Videla e o almirante Emilio Eduardo Massera; agora sob os aplausos de espectadores.

O filme também apresenta problemas básicos de direção. Não identifica algumas pessoas que prestaram depoimento e nem os lugares e as datas das imagens de arquivo. Outras gravações antigas, como as que reproduzem os discursos de Kirchner, têm falhas no áudio e estão sem legendas. A música, capaz de causar um sentimento nostálgico até em brasileiro, é de Gustavo Santaolalla, parceiro do brasileiro Walter Salles em Diários de Motocicleta e On the Road.

Assista ao trailer.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Duas voltas de Cortázar em Havana

Ultimo Round, de Julio Cortázar, é um convite a desvendar pequenos fragmentos como se fossem anúncios de um diário do escritor argentino. Editado pela Siglo Veintiuno em 1969, os dois volumes da obra reúnem pequenos ensaios, relatos e poemas, alguns ilustrados por fotografias e gravuras, além da reprodução de artigos e aspas de autores desconhecidos inscritas em paredes e muros parisienses. 

Em meio a tantos microcontos e experimentos, uma carta de Julio Cortázar, escrita em maio de 1967 e publicada no segundo volume, tem um significado à parte. Primeiro pelos relatos e descobertas do cronopio que escreve contos e novelas, como ele se decifra na missiva; e depois por se tratar de um documento de valor literário à obra e de caráter histórico, onde se pressupõe que não há edição ou intermediação. Cortázar se mostra desnudo e às claras.

A carta em questão, remetida ao poeta cubano Roberto Fernández Retamar, é uma resposta de Cortázar à revista Casa de Las Américas, de Havana, publicação editada desde 1960 para difundir a cultura literária dos países da América Latina e Caribe. Com o título Acerca de la situación del intelectual latino-americano, o argentino que escreve desde Saignon, na França, esclarece nas primeiras linhas que ainda que seus livros estejam presentes na América Latina isto não invalida o fato irreversível de ter saído da Argentina há 16 anos e de desde então residir em um país europeu. Filho de argentinos, Cortázar nasceu na embaixada da Argentina em Ixelles, distrito de Bruxelas, e voltou ao país latino-americano aos quatro anos de idade. Em 1951, aos 37 anos, por condenar a ditadura na Argentina, partiu para Paris graças a uma bolsa de estudo do governo francês para ali estudar por dez meses.  Por lá permaneceu até 12 de fevereiro de 1984, data de sua morte.

Cortázar retomou contato pessoal com a América Latina nos cinco anos que antecedem a referida missiva, em 1962, quando lançou Historias de Cronopios y Famas. No ano seguinte, em 1963, mesmo ano do lançamento de Rayuela, o escritor visitou Cuba para ser jurado de um concurso, a convite da Casa de las Américas. Ele confessa a Retamar que entre as principais causas pelas quais se alegra de ter saído da Argentina, é ter acompanhado a revolução cubana com uma visão desnacionalizada. E diz que reforça sua convicção ao conversar com amigos argentinos que passam por Paris, com a mais triste ignorância do que verdadeiramente ocorre em Cuba. “Para afirmarme en esta convicción me basta, de cuando en cuando, hablar con amigos argentinos que pasan por París con la más triste ignorancia de lo que verdaderamente ocurre en Cuba; me basta hojear los periódicos que leen veinte millones de compatriotas; me basta y me sobra sentirme a cubierto de la influencia que ejerce la información norteamericana en mi país y de la que no se salvan, incluso creyéndolo sinceramente, infinidad de escritores y artistas argentinos de mi generación que comulgan todos los días con las ruedas de molino subliminales de la United Press y las revistas “democráticas” que marchan al compás de Time o de Life”.

O contato de Cortázar com as realizações da revolução cubana e as conversas com outros escritores e artistas impactaram o escritor argentino. Por um lado, ele mais uma vez tocava a realidade latino-americana e por outro assistia cotidianamente a dura tarefa de construir o socialismo em um país “tão pouco preparado em muitos aspectos e tão aberto aos riscos mais iminentes”.

Mais adiante, o escritor, que havia estado em Cuba por duas vezes, a primeira no ano de 1961 a convite de Fidel Castro e, depois em 1963, como jurado da Casa de las Américas, questiona: “Não achas realmente paradoxal que um argentino quase totalmente voltado para a Europa em sua juventude, a ponto de queimar os navios e vir para a França sem qualquer ideia precisa de seu destino, tenha descoberto aqui, depois de uma década, a sua verdadeira condição de latino-americano?”.

Depois dessas duas voltas em Cuba, ao regressar à França, disse ter compreendido melhor duas coisas. O seu então vago compromisso militante e intelectual com a luta pelo socialismo o obrigaria a assumir definições e uma colaboração concreta. Por outro lado, ainda que sob o risco de decepcionar aos catequistas e defensores da arte a serviço das massas, Cortázar assume que é apenas um cronopio que escreve para sua alegria e seu sofrimento pessoal, sem a menor concessão, sem obrigações “latino-americanas” ou “socialistas”.