sábado, 25 de março de 2017

divagações

Florianópolis me rendeu um diploma, uma síndrome maltratada e uma dúzia de perdas. Em doze anos, nove mudanças. Lembro da geografia de cada quarto, da posição do armário (ou da falta dele), da escrivaninha junto à janela com vista para a sala do vizinho. Fui de quarto sem mobília a apartamento com suíte e churrasqueira na sacada. Em cada mudança, um vaso quebrado, uma gravura perdida, um sofá que já não cabia. E se toda mudança carrega suas perdas, também traz uma dose de perplexidade. São os ruídos da noite, toda parafernália por instalar, prender ou furar. São as chaves que não abrem aquelas portas, o correio que não chega e também o CEP que esqueço de lembrar. E diante de tantas intempéries, a dúvida toma de assalto: precisava tanto?! Ao fim, e como diriam os franceses: Plus ça change, plus c’est la même chose.

sábado, 11 de março de 2017

uma experiência antianalítica

        Na antessala do divã, ela antecipava a sessão.  À espera, sentada num sofá de dois, uma música tocava alto e dividia as notas com a lima da pérsia que discretamente perfumava o ambiente.  À sua frente, uma reprodução barata dos girassóis de Van Gogh. Ao lado, a mesa amarela que servia de apoio às lamúrias e queixumes cedia espaço para os contos de Borges. Lembrara, então, o porquê de estar ali. Sonhava em castelhano. Lia Cortázar antes de dormir e, a princípio, pensava que isso perturbava suas noites insones. De imediato, tentou abandonar o último round e encarar aquele velho tomo de Virgina Woolf. Tentaria também o suicídio? Lembrou do teacher do colégio, que se dizia PhD em Plath e Joyce e quando embasbacado punha as mãos a rezar e repetia unbelievable!. Ahhh, aquele colégio cristão e seu inconfundível uniforme azul. Afinal, por que sua mãe insistia na bainha da saia nos joelhos? Saberia ela seu real tamanho?

Pega o livro de Borges. Na dedicatória, em letras miúdas:

[Helena,
Borges haveria de celebrar este nosso reencontro.
com amor,
JL]

Um desencontro que repete um antigo encontro. JL de Jorge Luis. Demasiadamente óbvio, pensou.  A porta se abre e um homem atravessa a antessala. Gordo, choroso, em crise. Eu não tenho problemas, pensou. O que fazia ali? Sonhava em castelhano, apenas. Bastaria ler Cortázar pela manhã. Já não tinha o hábito de repetir roupas e menos ainda encontros. Usava saias no joelho por opção e não mais pela imposição de sua mãe. JL de Jacques Lacan!, matou a charada.

Ele abre a porta e a chama. Para ela, a sessão já estava terminada.