sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Néstor Kirchner, a película

“Néstor Kirchner, a película”, biografia cinematográfica do presidente Kirchner (2003-2007), não é um bom relato. O filme, financiado pelo Instituto Nacional de Cinema e Artes Audiovisuais (Incaa) e com estreia em 120 salas do circuito comercial na Argentina, não aprofunda questões fundamentais do governo de Néstor Kirchner. A produção é uma obra militante e festiva, mas sem o devido aprofundamento político.

A diretora Paula de Luque abusa de fragmentos de gravações caseiras e de testemunhos de familiares, a exemplo do depoimento do filho Máximo Kirchner, que conta como seu pai desfrutava tombando seus soldadinhos de brinquedo durante sua infância. Ou, ainda, que gostava de fazer chifrinhos em quem estava ao seu lado na foto ou filmagem.

Apesar da reprodução de imagens de Kirchner com os presidentes Hugo Chávez (Venezuela), Lula (Brasil), Evo Morales (Bolívia) e Rafael Correa (Equador), a relação entre os países não é documentada por depoimentos de líderes latino-americanos. A viúva e presidente Cristina Kirchner, também restrita às imagens de arquivo, citada em testemunhos familiares e devidamente enaltecida pela aprovação da Ley de Medios, tampouco aparece no filme.

Fica de fora, por exemplo, uma anedota contada recentemente em Buenos Aires, no encerramento do Encontro de Economia Política, pelo vice-presidente da Bolívia, Álvaro García Linera, sobre a decisão de nacionalizar os recursos no país boliviano. Em um ato em Santa Cruz, em 2007, antes de iniciar a cerminônia, Néstor Kirchner perguntou a Evo Morales qual a principal luta no país. O presidente da Bolívia disse que as petrolíferas não querem investir pelos altos impostos. Néstor não respondeu de imediato, mas em seu discurso anunciou que a Argentina daria todo o dinheiro que a Bolívia necessitasse para a produção de petróleo e gás que as empresas se negavam a investir. Logo depois, contou García Linera, as empresas fizeram filas para investir em energia.

Outro aspecto central pouco explorado no documentário é a política de direitos humanos do governo Néstor Kirchner, caracterizada pelo fim das leis de Ponto Final e Obediência Devida, que impediam o julgamento político de torturadores e autores de delitos de lesa humanidade durante a última ditadura militar argentina (1976-1983). É retratado na película apenas o momento em que Néstor ordena ao comandante-chefe do exército que retire os quadros de todos os militares que governaram o país durante a ditadura. Entre eles dois integrantes da primeira Junta Militar da ditadura, o general Jorge Rafael Videla e o almirante Emilio Eduardo Massera; agora sob os aplausos de espectadores.

O filme também apresenta problemas básicos de direção. Não identifica algumas pessoas que prestaram depoimento e nem os lugares e as datas das imagens de arquivo. Outras gravações antigas, como as que reproduzem os discursos de Kirchner, têm falhas no áudio e estão sem legendas. A música, capaz de causar um sentimento nostálgico até em brasileiro, é de Gustavo Santaolalla, parceiro do brasileiro Walter Salles em Diários de Motocicleta e On the Road.

Assista ao trailer.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Duas voltas de Cortázar em Havana

Ultimo Round, de Julio Cortázar, é um convite a desvendar pequenos fragmentos como se fossem anúncios de um diário do escritor argentino. Editado pela Siglo Veintiuno em 1969, os dois volumes da obra reúnem pequenos ensaios, relatos e poemas, alguns ilustrados por fotografias e gravuras, além da reprodução de artigos e aspas de autores desconhecidos inscritas em paredes e muros parisienses. 

Em meio a tantos microcontos e experimentos, uma carta de Julio Cortázar, escrita em maio de 1967 e publicada no segundo volume, tem um significado à parte. Primeiro pelos relatos e descobertas do cronopio que escreve contos e novelas, como ele se decifra na missiva; e depois por se tratar de um documento de valor literário à obra e de caráter histórico, onde se pressupõe que não há edição ou intermediação. Cortázar se mostra desnudo e às claras.

A carta em questão, remetida ao poeta cubano Roberto Fernández Retamar, é uma resposta de Cortázar à revista Casa de Las Américas, de Havana, publicação editada desde 1960 para difundir a cultura literária dos países da América Latina e Caribe. Com o título Acerca de la situación del intelectual latino-americano, o argentino que escreve desde Saignon, na França, esclarece nas primeiras linhas que ainda que seus livros estejam presentes na América Latina isto não invalida o fato irreversível de ter saído da Argentina há 16 anos e de desde então residir em um país europeu. Filho de argentinos, Cortázar nasceu na embaixada da Argentina em Ixelles, distrito de Bruxelas, e voltou ao país latino-americano aos quatro anos de idade. Em 1951, aos 37 anos, por condenar a ditadura na Argentina, partiu para Paris graças a uma bolsa de estudo do governo francês para ali estudar por dez meses.  Por lá permaneceu até 12 de fevereiro de 1984, data de sua morte.

Cortázar retomou contato pessoal com a América Latina nos cinco anos que antecedem a referida missiva, em 1962, quando lançou Historias de Cronopios y Famas. No ano seguinte, em 1963, mesmo ano do lançamento de Rayuela, o escritor visitou Cuba para ser jurado de um concurso, a convite da Casa de las Américas. Ele confessa a Retamar que entre as principais causas pelas quais se alegra de ter saído da Argentina, é ter acompanhado a revolução cubana com uma visão desnacionalizada. E diz que reforça sua convicção ao conversar com amigos argentinos que passam por Paris, com a mais triste ignorância do que verdadeiramente ocorre em Cuba. “Para afirmarme en esta convicción me basta, de cuando en cuando, hablar con amigos argentinos que pasan por París con la más triste ignorancia de lo que verdaderamente ocurre en Cuba; me basta hojear los periódicos que leen veinte millones de compatriotas; me basta y me sobra sentirme a cubierto de la influencia que ejerce la información norteamericana en mi país y de la que no se salvan, incluso creyéndolo sinceramente, infinidad de escritores y artistas argentinos de mi generación que comulgan todos los días con las ruedas de molino subliminales de la United Press y las revistas “democráticas” que marchan al compás de Time o de Life”.

O contato de Cortázar com as realizações da revolução cubana e as conversas com outros escritores e artistas impactaram o escritor argentino. Por um lado, ele mais uma vez tocava a realidade latino-americana e por outro assistia cotidianamente a dura tarefa de construir o socialismo em um país “tão pouco preparado em muitos aspectos e tão aberto aos riscos mais iminentes”.

Mais adiante, o escritor, que havia estado em Cuba por duas vezes, a primeira no ano de 1961 a convite de Fidel Castro e, depois em 1963, como jurado da Casa de las Américas, questiona: “Não achas realmente paradoxal que um argentino quase totalmente voltado para a Europa em sua juventude, a ponto de queimar os navios e vir para a França sem qualquer ideia precisa de seu destino, tenha descoberto aqui, depois de uma década, a sua verdadeira condição de latino-americano?”.

Depois dessas duas voltas em Cuba, ao regressar à França, disse ter compreendido melhor duas coisas. O seu então vago compromisso militante e intelectual com a luta pelo socialismo o obrigaria a assumir definições e uma colaboração concreta. Por outro lado, ainda que sob o risco de decepcionar aos catequistas e defensores da arte a serviço das massas, Cortázar assume que é apenas um cronopio que escreve para sua alegria e seu sofrimento pessoal, sem a menor concessão, sem obrigações “latino-americanas” ou “socialistas”.