quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Duas voltas de Cortázar em Havana

Ultimo Round, de Julio Cortázar, é um convite a desvendar pequenos fragmentos como se fossem anúncios de um diário do escritor argentino. Editado pela Siglo Veintiuno em 1969, os dois volumes da obra reúnem pequenos ensaios, relatos e poemas, alguns ilustrados por fotografias e gravuras, além da reprodução de artigos e aspas de autores desconhecidos inscritas em paredes e muros parisienses. 

Em meio a tantos microcontos e experimentos, uma carta de Julio Cortázar, escrita em maio de 1967 e publicada no segundo volume, tem um significado à parte. Primeiro pelos relatos e descobertas do cronopio que escreve contos e novelas, como ele se decifra na missiva; e depois por se tratar de um documento de valor literário à obra e de caráter histórico, onde se pressupõe que não há edição ou intermediação. Cortázar se mostra desnudo e às claras.

A carta em questão, remetida ao poeta cubano Roberto Fernández Retamar, é uma resposta de Cortázar à revista Casa de Las Américas, de Havana, publicação editada desde 1960 para difundir a cultura literária dos países da América Latina e Caribe. Com o título Acerca de la situación del intelectual latino-americano, o argentino que escreve desde Saignon, na França, esclarece nas primeiras linhas que ainda que seus livros estejam presentes na América Latina isto não invalida o fato irreversível de ter saído da Argentina há 16 anos e de desde então residir em um país europeu. Filho de argentinos, Cortázar nasceu na embaixada da Argentina em Ixelles, distrito de Bruxelas, e voltou ao país latino-americano aos quatro anos de idade. Em 1951, aos 37 anos, por condenar a ditadura na Argentina, partiu para Paris graças a uma bolsa de estudo do governo francês para ali estudar por dez meses.  Por lá permaneceu até 12 de fevereiro de 1984, data de sua morte.

Cortázar retomou contato pessoal com a América Latina nos cinco anos que antecedem a referida missiva, em 1962, quando lançou Historias de Cronopios y Famas. No ano seguinte, em 1963, mesmo ano do lançamento de Rayuela, o escritor visitou Cuba para ser jurado de um concurso, a convite da Casa de las Américas. Ele confessa a Retamar que entre as principais causas pelas quais se alegra de ter saído da Argentina, é ter acompanhado a revolução cubana com uma visão desnacionalizada. E diz que reforça sua convicção ao conversar com amigos argentinos que passam por Paris, com a mais triste ignorância do que verdadeiramente ocorre em Cuba. “Para afirmarme en esta convicción me basta, de cuando en cuando, hablar con amigos argentinos que pasan por París con la más triste ignorancia de lo que verdaderamente ocurre en Cuba; me basta hojear los periódicos que leen veinte millones de compatriotas; me basta y me sobra sentirme a cubierto de la influencia que ejerce la información norteamericana en mi país y de la que no se salvan, incluso creyéndolo sinceramente, infinidad de escritores y artistas argentinos de mi generación que comulgan todos los días con las ruedas de molino subliminales de la United Press y las revistas “democráticas” que marchan al compás de Time o de Life”.

O contato de Cortázar com as realizações da revolução cubana e as conversas com outros escritores e artistas impactaram o escritor argentino. Por um lado, ele mais uma vez tocava a realidade latino-americana e por outro assistia cotidianamente a dura tarefa de construir o socialismo em um país “tão pouco preparado em muitos aspectos e tão aberto aos riscos mais iminentes”.

Mais adiante, o escritor, que havia estado em Cuba por duas vezes, a primeira no ano de 1961 a convite de Fidel Castro e, depois em 1963, como jurado da Casa de las Américas, questiona: “Não achas realmente paradoxal que um argentino quase totalmente voltado para a Europa em sua juventude, a ponto de queimar os navios e vir para a França sem qualquer ideia precisa de seu destino, tenha descoberto aqui, depois de uma década, a sua verdadeira condição de latino-americano?”.

Depois dessas duas voltas em Cuba, ao regressar à França, disse ter compreendido melhor duas coisas. O seu então vago compromisso militante e intelectual com a luta pelo socialismo o obrigaria a assumir definições e uma colaboração concreta. Por outro lado, ainda que sob o risco de decepcionar aos catequistas e defensores da arte a serviço das massas, Cortázar assume que é apenas um cronopio que escreve para sua alegria e seu sofrimento pessoal, sem a menor concessão, sem obrigações “latino-americanas” ou “socialistas”.

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