terça-feira, 23 de agosto de 2016

humor drummondiano

VIVER
Carlos Drummond de Andrade

Mas era apenas isso,
era isso, mais nada?
Era só a batida
numa porta fechada?
E ninguém respondendo,
nenhum gesto de abrir:
era, sem fechadura,
uma chave perdida?
Isso, ou menos que isso,
uma noção de porta,
o projeto de abri-la
sem haver outro lado?
O projeto de escuta
à procura de som?
O responder que oferta
o dom de uma recusa?
Como viver o mundo
em termos de esperança?
E que palavra é essa
que a vida não alcança?

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

"9:30, tua carta e o sol voltou"


Aqui jaz um artista / mestre em desastres / viver / com a intensidade da arte / levou-o ao infarte / deus tenha pena / dos seus disfarces.

Mestre em jogos irônicos, improvisos, caprichos e relaxos. O cachorro louco Paulo Leminski não era fixo em nada. Fez poesia, prosa, romances, contos, traduções, biografias, canções, ensaios críticos, crônicas e um catatau de outras coisas. Na obra Paulo Leminski – o bandido que sabia latim, o biógrafo Toninho Vaz apresenta o poeta como samurai futurista, pensador, selvagem, agitador intelectual, meio polaco e meio caboclo, provinciano e universal, e conclui: “ Leminski foi uma inesquecível tempestade na cena cultural brasileira, antes de morrer aos 44 anos, em 1989, no auge do sucesso, como um mito”. Críticos de amigos tentaram classificá-lo. Caipira cabotino, samurai malandro, monástico sujeito, polilíngue paroquiano cósmico, samurai mestiço. Ele também tentou se autodenominar. Parnasiano-chic, guerreiro da palavra, caboclo-monge-black-beat-zen, útil operário do signo.
        
    Leminski não pode ser situado em algum centro. É um poeta e prosador que transita entre o erudito e o popular, o legível e o ilegível, a exatidão da forma e a descompressão do verso; um “homem-centauro” que “hesita, mestiça entre a pressa e a preguiça”, porque assim ele queria ser lembrado.
            Esse retrato multifacetado é acentuado, sobretudo, na obra Uma carta uma brasa através, reeditada em 1999 com o título Envie meu Dicionário – cartas e alguma crítica, que reúne as 68 cartas remetidas ao poeta paulista Régis Bonvicino. Leminski fez da sua correspondência um diálogo privado, o registro de um desabafo, um testemunho poético onde o autor “aconselha, admoesta, comenta, discorda, prega, teoriza, doutrina, corrige poema e outros escritos”, como discorreu Walnice Galvão sobre o epistolário de Mário de Andrade.
            Nos cinco anos da troca epistolar, a figura opressiva foi a da censura. Falar em música popular brasileira e televisão representava não somente a modernização, mas ecoava resistência cultural. Nas cartas-poemas, Leminski dá voz àquilo que não era de direito mencionar, faz alusões à ditadura militar dos anos 1970, ao movimento da contracultura, às inquietações político-estéticas de sua geração e imprime sua identidade poética, uma busca da “liberdade da minha linguagem”.
            Em 1976, às três da madrugada de uma noite chuvosa em Curitiba, o poeta escreve as primeiras páginas endereçadas ao amigo paulista Régis Bonvicino. “(...) depois do Catatau? / não quero mais escrever LIVROS / não quero fazer carreira literária”. Nesta missiva, o poeta impõe-se e move-se em contradições, já que Catatau foi sua primeira prosa e, nos anos seguintes, Leminski teria publicado 18 livros e traduzido oito obras de escritores estrangeiros. Em julho de 1979, a divergência do poeta seria apontada por alguém em Curitiba: “- ué, v. não disse que o catatau ia ser teu último livro? – sim, mas naquela época eu bebia....”. Assim como esta primeira incoerência, destoada na medida que a publicação poética do autor invalida sua própria transcrição, outra questão é discutida na correspondência desses missivistas: a relação de Leminski com os precursores do movimento concretista (leia-se Décio Pignatari, Haroldo e Augusto de Campos). Nas cartas, ora Leminski afirma seguramente que precisa combater alguns interditos que a poesia concreta instalou, ora faz alusão ao seu período concretista, quando escrevia para seus patriarcas e ficava preocupado em saber “o que eles iam achar”.
            Leminski conheceu o trio Noigandres na Semana Nacional da Poesia da Vanguarda, em 1963, por ter afinidade e influência com o repertório do grupo, sobretudo pelos poemas e traduções dos Cantos, de Ezra Pound, feitas por Haroldo de Campos. A reconstituição intelectual e a materialidade da linguagem, com o encontro da voz, som, cor, movimento e elementos não-verbais, deram a tônica inicial para o concretismo e assinalaram a ruptura com o padrão tradicional do verso. Na poética leminskiana, o concretismo contribuiu para “tornar compreensíveis coisas até então incompreensíveis”, como disse o poeta. “(...) nessa época eu era “concretista” / mas eu era uma porção de outras coisas também / e quando deixei que elas agissem mais forte / fiz o Catatau (...)”, escreveu em julho de 1977. 


            Apesar do envolvimento com os poetas concretos, significativo na primeira carta e em algumas observações manuscritas, a visão crítica sobre os patriarcas não demoraria a se manifestar. Em 3 de dezembro de 1976, Leminski se refere ao Plano Piloto para a Poesia Concreta, que sintetizava as ideias centrais do movimento concretista, como “plano piloto que virou pirata”. Mais tarde, em julho de 1977, recorda o alerta de Pignatari: “É preciso acabar com o concretismo. E quem pode fazer isso são vocês”. E observa: “(...) nós já estamos chegando lá (...) já consegui ver a fímbria de algo / que já não é mais concretismo / embora pressuponha e o tenha deglutido (...)”. O poeta demonstra não querer desapropriar as influências dos antecessores, mas potencializá-las e deixá-las agir com outras sustentações, seguindo a prescrição de Matsuó Bashô em Sendas de Ôku: “Não siga os antigos. Procure o que eles procuraram”. Leminski buscava outros valores, através de outras categorias de pensamento e apreciação e, ainda que implícito, revela nas cartas a ânsia de se libertar dos critérios de rigor, da radicalidade poética, das formas, paideumas e experimentos puros.
            A correspondência revela, ainda, o isolamento poético de Leminski na capital provinciana. Diante do distanciamento geográfico de seus interlocutores, o curitibano construía sua “ponte mágica e epistolar”, envelopes em que circulavam revistas, jornais, ensaios e outras publicações, os chamados “pacote/reposta”. A Curitiba do poeta era “simbolista, quieta, caipira, metrópole, tímida, terra de bares e longas encucações, fria, com poentes longos como agonias, não brasileira, de gente que não é pobre nem rica, média, mediana, medíocre”. A exemplo da quase epopeia em que Leminski pensou em ser Homero, Rimbaud, Ungaretti, Fernando Pessoa, Lorca, Éluard ou Ginsberg, e conclui com uma nota melancólica e irônica: “Por fim / acabamos o pequeno poeta da província / que sempre fomos / por trás de tantas máscaras / que o tempo tratou como a flores”.

“P.S. – mostra esta carta a augusto e todo o pessoal senão...”.



[publicado originalmente em DC Cultura, 29 de abril de 2006].

terça-feira, 2 de agosto de 2016

na cabeceira...

Há tempos não mergulhava num autor. Aí outro dia, numa dessas andanças entre sebos e livrarias, comprei Todos os Contos de Clarice Lispector. Ainda que prefira as vozes femininas e que essas fiquem encantadas num certo canto da estante, Clarice nunca passou por aqui. Talvez uma renúncia juvenil que agora rima com falta. 
O fato é que, há pouco mais de uma semana, Clarice tem me acompanhado e deliciado minhas madrugadas e manhãs. Hoje acordei antes do nascer do dia, sentei com ela na poltrona que dá vista para uma árvore perto da janela, e devorei suas primeiras histórias. Aí segue um fragmento do conto Obsessão que, por alguma razão, tem um pouco de mim.  

[(...) aos dezenove anos encontrei Jaime. Casamo-nos e alugamos um apartamento bonito, bem mobiliado. Vivemos seis anos juntos, sem filhos. E eu era feliz. Se alguém me perguntava, eu afirmava, acrescentava não sem um pouco de perplexidade: “E por que não? ” Jaime foi sempre bom para mim. E, seu temperamento pouco ardente, eu o considerava de certo modo um prolongamento de meus pais, de minha casa anterior, onde habituara-me aos privilégios de filha única (...)].

na vitrola...

na vitrola, tua boca, na viola de Itamar Assumpção. 

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O traje último de Cubas

Adormeci com uma ideia fixa e fui desperto por uma ânsia maior. A primeira sensação foi de mal-estar nas vísceras e no âmago; depois, de dúvida. E para mutilar-me de qualquer certeza, assisti Helena, a minha Capitu, vestir-se pela manhã. De felpas negras a meias de algodão. Tentei imaginar as ruelas por onde andavam aqueles saltos rasos. Lembrei que outro dia, ao vestir-se em longas saias e sair sem mais, voltou sem nada, inclusive sem motivos contrários. Imaginar. Ato de coragem e asco. Ela, diante do meu olhar fixo, sorria um riso solto e quanto mais alto era a nota, maior minha convicção. Por certo um adultério. Talvez me falte um propósito. Fosse um homem de incumbências, de hora marcada e camisa engomada, teria valor. Então, saí naquela manhã com a ideia fixa de convalescer-me da traição. Atravessei o mercado e cortei pela avenida dos floristas. Aquela prateleira desengonçada, entre carros atropelando a rotina, numa esquina que rima com encruzilhada. Parei em frente ao antiquário. Helena disse que ali reviveria relíquias da década de 20. O relógio da capela marcava cinco para às nove. O padre já subira e descera a escadaria da capela tantas vezes e nem sinal de Helena. Acenei ao longe como quem busca uma prece. – Bom dia, Bentinho, dirigiu-me a palavra já ao cruzar a rua. Mais quarenta e três minutos em silêncio. Voltei à rua das flores e encostei-me na quitanda da dama-da-noite. Maldito que plantara em mim essa angústia indizível. Esperei Helena por mais de uma hora. Próximo das onze, sem mais, decidi abandonar meu propósito. Comprei meia dúzia de rosas e transpirei na frustrada tentativa de aquietar o temor. – Isso não passa de uma pequeneza, pensei. Irei para casa, porei as flores no vaso e dormirei com a ideia fixa de acordar Brás Cubas. Haverei de saber lidar com a morte.

[velhas letrinhas minhas].

ah, a vida é líquida

É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.

* * *

Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d'água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.

* * *

E bebendo, Vida, recusamos o sólido
O nodoso, a friez-armadilha
De algum rosto sóbrio, certa voz
Que se amplia, certo olhar que condena
O nosso olhar gasoso: então, bebendo?
E respondemos lassas lérias letícias
O lusco das lagartixas, o lustrino
Das quilhas, barcas, gaivotas, drenos
E afasta-se de nós o sólido de fechado cenho.
Rejubilam-se nossas coronárias. Rejubilo-me
Na noite navegada, e rio, rio, e remendo
Meu casaco rosso tecido de açucena.
Se dedutiva e líquida, a Vida é plena.

* * *

Te amo, Vida, líquida esteira onde me deito
Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado
Salpicado de negro, de doçuras e iras.
Te amo, Líquida, descendo escorrida
Pela víscera, e assim esquecendo
Fomes
País
O riso solto
A dentadura etérea
Bola
Miséria.
Bebendo, Vida, invento casa, comida
E um Mais que se agiganta, um Mais
Conquistando um fulcro potente na garganta
Um látego, uma chama, um canto. Amo-me.
Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos
Quando não sou líquida.


(Alcóolicas, Hilda Hilst)