segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O traje último de Cubas

Adormeci com uma ideia fixa e fui desperto por uma ânsia maior. A primeira sensação foi de mal-estar nas vísceras e no âmago; depois, de dúvida. E para mutilar-me de qualquer certeza, assisti Helena, a minha Capitu, vestir-se pela manhã. De felpas negras a meias de algodão. Tentei imaginar as ruelas por onde andavam aqueles saltos rasos. Lembrei que outro dia, ao vestir-se em longas saias e sair sem mais, voltou sem nada, inclusive sem motivos contrários. Imaginar. Ato de coragem e asco. Ela, diante do meu olhar fixo, sorria um riso solto e quanto mais alto era a nota, maior minha convicção. Por certo um adultério. Talvez me falte um propósito. Fosse um homem de incumbências, de hora marcada e camisa engomada, teria valor. Então, saí naquela manhã com a ideia fixa de convalescer-me da traição. Atravessei o mercado e cortei pela avenida dos floristas. Aquela prateleira desengonçada, entre carros atropelando a rotina, numa esquina que rima com encruzilhada. Parei em frente ao antiquário. Helena disse que ali reviveria relíquias da década de 20. O relógio da capela marcava cinco para às nove. O padre já subira e descera a escadaria da capela tantas vezes e nem sinal de Helena. Acenei ao longe como quem busca uma prece. – Bom dia, Bentinho, dirigiu-me a palavra já ao cruzar a rua. Mais quarenta e três minutos em silêncio. Voltei à rua das flores e encostei-me na quitanda da dama-da-noite. Maldito que plantara em mim essa angústia indizível. Esperei Helena por mais de uma hora. Próximo das onze, sem mais, decidi abandonar meu propósito. Comprei meia dúzia de rosas e transpirei na frustrada tentativa de aquietar o temor. – Isso não passa de uma pequeneza, pensei. Irei para casa, porei as flores no vaso e dormirei com a ideia fixa de acordar Brás Cubas. Haverei de saber lidar com a morte.

[velhas letrinhas minhas].

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