segunda-feira, 8 de agosto de 2016

"9:30, tua carta e o sol voltou"


Aqui jaz um artista / mestre em desastres / viver / com a intensidade da arte / levou-o ao infarte / deus tenha pena / dos seus disfarces.

Mestre em jogos irônicos, improvisos, caprichos e relaxos. O cachorro louco Paulo Leminski não era fixo em nada. Fez poesia, prosa, romances, contos, traduções, biografias, canções, ensaios críticos, crônicas e um catatau de outras coisas. Na obra Paulo Leminski – o bandido que sabia latim, o biógrafo Toninho Vaz apresenta o poeta como samurai futurista, pensador, selvagem, agitador intelectual, meio polaco e meio caboclo, provinciano e universal, e conclui: “ Leminski foi uma inesquecível tempestade na cena cultural brasileira, antes de morrer aos 44 anos, em 1989, no auge do sucesso, como um mito”. Críticos de amigos tentaram classificá-lo. Caipira cabotino, samurai malandro, monástico sujeito, polilíngue paroquiano cósmico, samurai mestiço. Ele também tentou se autodenominar. Parnasiano-chic, guerreiro da palavra, caboclo-monge-black-beat-zen, útil operário do signo.
        
    Leminski não pode ser situado em algum centro. É um poeta e prosador que transita entre o erudito e o popular, o legível e o ilegível, a exatidão da forma e a descompressão do verso; um “homem-centauro” que “hesita, mestiça entre a pressa e a preguiça”, porque assim ele queria ser lembrado.
            Esse retrato multifacetado é acentuado, sobretudo, na obra Uma carta uma brasa através, reeditada em 1999 com o título Envie meu Dicionário – cartas e alguma crítica, que reúne as 68 cartas remetidas ao poeta paulista Régis Bonvicino. Leminski fez da sua correspondência um diálogo privado, o registro de um desabafo, um testemunho poético onde o autor “aconselha, admoesta, comenta, discorda, prega, teoriza, doutrina, corrige poema e outros escritos”, como discorreu Walnice Galvão sobre o epistolário de Mário de Andrade.
            Nos cinco anos da troca epistolar, a figura opressiva foi a da censura. Falar em música popular brasileira e televisão representava não somente a modernização, mas ecoava resistência cultural. Nas cartas-poemas, Leminski dá voz àquilo que não era de direito mencionar, faz alusões à ditadura militar dos anos 1970, ao movimento da contracultura, às inquietações político-estéticas de sua geração e imprime sua identidade poética, uma busca da “liberdade da minha linguagem”.
            Em 1976, às três da madrugada de uma noite chuvosa em Curitiba, o poeta escreve as primeiras páginas endereçadas ao amigo paulista Régis Bonvicino. “(...) depois do Catatau? / não quero mais escrever LIVROS / não quero fazer carreira literária”. Nesta missiva, o poeta impõe-se e move-se em contradições, já que Catatau foi sua primeira prosa e, nos anos seguintes, Leminski teria publicado 18 livros e traduzido oito obras de escritores estrangeiros. Em julho de 1979, a divergência do poeta seria apontada por alguém em Curitiba: “- ué, v. não disse que o catatau ia ser teu último livro? – sim, mas naquela época eu bebia....”. Assim como esta primeira incoerência, destoada na medida que a publicação poética do autor invalida sua própria transcrição, outra questão é discutida na correspondência desses missivistas: a relação de Leminski com os precursores do movimento concretista (leia-se Décio Pignatari, Haroldo e Augusto de Campos). Nas cartas, ora Leminski afirma seguramente que precisa combater alguns interditos que a poesia concreta instalou, ora faz alusão ao seu período concretista, quando escrevia para seus patriarcas e ficava preocupado em saber “o que eles iam achar”.
            Leminski conheceu o trio Noigandres na Semana Nacional da Poesia da Vanguarda, em 1963, por ter afinidade e influência com o repertório do grupo, sobretudo pelos poemas e traduções dos Cantos, de Ezra Pound, feitas por Haroldo de Campos. A reconstituição intelectual e a materialidade da linguagem, com o encontro da voz, som, cor, movimento e elementos não-verbais, deram a tônica inicial para o concretismo e assinalaram a ruptura com o padrão tradicional do verso. Na poética leminskiana, o concretismo contribuiu para “tornar compreensíveis coisas até então incompreensíveis”, como disse o poeta. “(...) nessa época eu era “concretista” / mas eu era uma porção de outras coisas também / e quando deixei que elas agissem mais forte / fiz o Catatau (...)”, escreveu em julho de 1977. 


            Apesar do envolvimento com os poetas concretos, significativo na primeira carta e em algumas observações manuscritas, a visão crítica sobre os patriarcas não demoraria a se manifestar. Em 3 de dezembro de 1976, Leminski se refere ao Plano Piloto para a Poesia Concreta, que sintetizava as ideias centrais do movimento concretista, como “plano piloto que virou pirata”. Mais tarde, em julho de 1977, recorda o alerta de Pignatari: “É preciso acabar com o concretismo. E quem pode fazer isso são vocês”. E observa: “(...) nós já estamos chegando lá (...) já consegui ver a fímbria de algo / que já não é mais concretismo / embora pressuponha e o tenha deglutido (...)”. O poeta demonstra não querer desapropriar as influências dos antecessores, mas potencializá-las e deixá-las agir com outras sustentações, seguindo a prescrição de Matsuó Bashô em Sendas de Ôku: “Não siga os antigos. Procure o que eles procuraram”. Leminski buscava outros valores, através de outras categorias de pensamento e apreciação e, ainda que implícito, revela nas cartas a ânsia de se libertar dos critérios de rigor, da radicalidade poética, das formas, paideumas e experimentos puros.
            A correspondência revela, ainda, o isolamento poético de Leminski na capital provinciana. Diante do distanciamento geográfico de seus interlocutores, o curitibano construía sua “ponte mágica e epistolar”, envelopes em que circulavam revistas, jornais, ensaios e outras publicações, os chamados “pacote/reposta”. A Curitiba do poeta era “simbolista, quieta, caipira, metrópole, tímida, terra de bares e longas encucações, fria, com poentes longos como agonias, não brasileira, de gente que não é pobre nem rica, média, mediana, medíocre”. A exemplo da quase epopeia em que Leminski pensou em ser Homero, Rimbaud, Ungaretti, Fernando Pessoa, Lorca, Éluard ou Ginsberg, e conclui com uma nota melancólica e irônica: “Por fim / acabamos o pequeno poeta da província / que sempre fomos / por trás de tantas máscaras / que o tempo tratou como a flores”.

“P.S. – mostra esta carta a augusto e todo o pessoal senão...”.



[publicado originalmente em DC Cultura, 29 de abril de 2006].

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