domingo, 19 de fevereiro de 2017

uma crônica inospitaleira

Acumular quedas, eis minha especialidade. No último sábado, com 39.7 graus de febre, experimentei tombar para trás sem apoio. Não consegui evitar a queda e 16h50 dei entrada na emergência do hospital. Inospitalidade. Não há ambiente mais inóspito que o hospital. E àqueles que pouco confiam na medicina e não tem um médico para chamar de seu, padecem ainda mais. Meu diagnóstico.
- Sinto dor, tontura, frio. Desmaiei duas vezes em menos de oito horas. Tenho sono.
E nada vem do outro lado. Nem um suspiro nem um alento. O médico não acolhe o sofrimento. Talvez amparar a dor do outro tenha sido eliminado do último código de ética. Ou pareça um tanto proustiano desejar um “vai ficar tudo bem”, assertiva que ali teria o gosto daquele beijo de boa noite da mãe.
- Preciso de exames.
Um enfermeiro capaz de me provocar algum riso me acompanha. Ele conta que foi estagiário no Carandiru e de lá seguiu para o Pinel. – Os caras saem de lá pior que entram, dizia enquanto me acomodava na maca. Espero que não se repita comigo, pensei. Eis que o enfermeiro capaz de me provocar algum riso começa a me furar. Três agulhadas, 750mg de paracetamol e uma recomendação: você precisa urinar. Preferi dormir. Acordei com aquele olhar blasé à la fim de plantão. – Teus exames não estão bons. Preciso de uma tomografia.

- Prenda o ar nos pulmões. Agora respire, ordenou a máquina.

Por sete minutos, num vaivém de quem entra e sai do claustro, mantive os olhos fixos no teto e aquela sensação indistinta que um cenário inquietante pode trazer. Pensei no que ainda não vivi, no que ainda está por vir, naquilo que me falta. Uma voz feminina interrompe: - Vou soltar o contraste. Você vai sentir calor, o corpo formigar e vontade de urinar. Pense em algo bom. Pensar no tom azul, uma mansidão capaz de acalmar a alma. Soava poético para mim.

Não há leito confortável dentro de um hospital. Mas a aspereza não está nos lençóis que cobrem a maca, na dor que grita ao lado, na mortalidade e no meu espanto. A dúvida é que consome. Sairia dali? Provavelmente, pensava. Ainda assim, é tênue a linha que separa a incerteza da racionalidade. Naquele instante, a única certeza é a da trégua. É preciso parar, respirar e soltar o ar dos pulmões. Sem ajuda de aparelhos. 

4 comentários:

  1. apenas para escrever a crônica. :)

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  2. Chuchi Silva21 fevereiro, 2017

    Na minha condição de turista eventual, só agora tomay conhecimento. Há um abismo temporal de pelo menos 12 anos desde a época em que a Manulíndia me contava tudo sobre ela (e o entorno). Mas o espanto causado pela notícia (e com muito atraso) terminou bem em pelo menos dois níveis: 1) minha lindzinha está bem (e não perdeu a acidez do humor que eu a-mo); 2) descobri a existência deste blog - sim, Manulíndia, eu não sabia dele até o momento (e vai pra minha minúscula lista dos blogs que têm o que dizer). <3 U!

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  3. Chuchi, linda! Que bom te ler por aqui!! O blog não é recente, mas voltei a escrever faz pouco... Saudade de você e de dividir meus causos contigo! Volte sempre 💙

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