quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Bons Ares

Buenos Aires tem pés que bailam e panelas que cantam. Tem intelectual disfarçado de taxista. Tem 36 graus na sombra e ônibus por 60 centavos de real. E ainda assim tem passageiro que golpeia o motorista. Buenos Aires tem lençol na grama, cestas de vime e mate. Muito mate. Tem mulher de franja e homem de rabinho.

Tem kirchnerista no poder e peronista por todo lado. Tem ingresso aberto às universidades. Têm latino-americanos e mais sei-lá-quantos milhões de argentinos. Também tem portenho com ares de europeu. Tem minimercado chino ocupando espaço entre tantos franceses. Tem vinho à tarde e à noite e tem farmácia que vende livro usado, um bom remédio para a cabeça.

Bons Ares tem cachorro na peluquería. Tem violeiro de uma nota só. E à noite rola um Chico César no metrô. Tem mulher grávida que fuma. Mas também tem homem que se lambuza com a xepa do chão. Tem maconha, quilmes e sexo na praça. Tem mulher sem sobrancelha e menino sem chinelo. Buenos Aires não tem som de ambulância. Mas barulho de gente. Tem 13S, 8N, 7D.

Tem colombiano vendendo fruta. Não tem praia, pero tiene piletas en los edificios. Tem apartamento pronto pra morar. Tem pão, milho e soja transgênica. Buenos Aires tem umidade nas quatro estações. Tiene boludo, pelotudo e hijo de puta también. Buenos tem um ar de milonga, de drama que salta ao olhar. Ah, Buenos Aires às vezes não é boa para as crianças. Tem gente bandida, perdida, tem miséria e cheiro de xixi.

Buenos Aires tem monopólio de mídia e não tem burguesia nacional.  Não tem raiban e nem mais loja da lui viton. Não tem dólar. Tem café, sebos e bibliotecas. Tem metrô que fecha às 22h45 e ônibus antigo que te deixa em casa. Buenos Aires não descansa à noite. Não se inquieta. Nunca.


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